O cenário político no Rio de Janeiro ganhou um novo capítulo de incerteza em torno da possível candidatura de Wilson Witzel ao governo do estado. Após o ex-governador anunciar publicamente sua intenção de concorrer ao Palácio Guanabara pelo partido Democracia Cristã (DC), a própria legenda veio a público para moderar as expectativas. A direção nacional da sigla afirmou categoricamente que qualquer decisão sobre candidaturas no Rio de Janeiro depende integralmente do aval do diretório estadual, rechaçando qualquer “interferência externa”. Este posicionamento coloca em xeque a estratégia de Witzel de pavimentar seu retorno à política, evidenciando que a busca por uma legenda que o aceite é mais complexa do que o inicialmente divulgado.
O impasse com o Democracia Cristã
A declaração unilateral de Wilson Witzel sobre sua pré-candidatura ao governo do Rio de Janeiro pelo Democracia Cristã gerou uma resposta imediata e contundente da direção nacional do partido. Em um vídeo direcionado aos filiados, o presidente nacional da sigla, João Caldas, fez questão de sublinhar que a prerrogativa para definir candidaturas e aceitar novos membros no estado é exclusiva do diretório fluminense. Essa manifestação pública serviu como um “freio” nas ambições do ex-governador, que havia anunciado em suas redes sociais que “encabeçaria” a disputa pelo DC, antes mesmo de oficializar sua filiação, agendada para 6 de março.
A palavra final do diretório estadual e o desconforto interno
A estrutura interna do Democracia Cristã confere ao diretório estadual do Rio de Janeiro um poder decisório crucial, especialmente no que tange à composição de chapas majoritárias e proporcionais. Presidido por Mauro Cozzolino, primo do prefeito de Magé, Renato Cozzolino (PP), o comando fluminense tem a incumbência de avaliar quem poderá ingressar na legenda e, consequentemente, quem será lançado como cabeça de chapa para o executivo estadual. João Caldas foi enfático ao afirmar que “qualquer pessoa que ingressar no Democracia Cristã vai passar pelo crivo do diretório estadual”. Essa declaração sugere que a filiação de Witzel, embora prevista, não é uma garantia automática de sua candidatura, indicando um processo de análise interna.
Nos bastidores, a movimentação precoce do ex-governador, ao anunciar sua liderança na disputa antes da formalização de sua entrada no partido, causou considerável desconforto entre integrantes do DC. O método adotado por Witzel foi interpretado por alguns como uma tentativa de impor uma decisão, desrespeitando os ritos e a autonomia da direção estadual. A prioridade do grupo local, segundo Caldas, está na formação de chapas proporcionais robustas, e a definição sobre a candidatura ao governo será uma consequência de discussões internas, e não de imposições externas. Este cenário revela uma dinâmica interna de poder e autonomia partidária que Witzel precisa transpor para concretizar seu projeto eleitoral.
Outros desafios e tentativas de viabilização
Antes de se aproximar do Democracia Cristã, Wilson Witzel buscou viabilizar seu retorno à cena política por meio de outras legendas. Em meados do ano passado, chegou a anunciar sua filiação ao PSDB, mas as negociações com a sigla tucana não prosperaram, frustrando as expectativas de um possível caminho eleitoral. A aproximação com o DC, segundo o próprio ex-governador, ocorreu após um convite feito pelo ex-presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo, que é apresentado pelo partido como pré-candidato à Presidência da República. Witzel declarou que essa aliança representaria uma “consolidação programática” focada nos interesses do estado, buscando alinhar sua visão com a plataforma da sigla.
A batalha jurídica no STF e o histórico político
Mesmo que consiga superar as resistências internas do Democracia Cristã e assegurar uma legenda, o projeto eleitoral de Wilson Witzel ainda enfrenta um obstáculo de proporções maiores: a Justiça. O ex-governador é réu em processos por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, o que representa um desafio significativo à sua elegibilidade. Recentemente, sua defesa acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) com um habeas corpus, que tramita sob segredo de Justiça e ainda aguarda distribuição, buscando o trancamento de uma ação penal que corre no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Esta ação penal foi iniciada no STJ em abril de 2021, período em que Witzel ainda desfrutava de foro privilegiado em razão do cargo. Após sua cassação, o processo chegou a ser remetido à primeira instância, mas retornou ao STJ em setembro de 2025. Essa mudança de foro decorreu de um novo entendimento do STF, que permite a manutenção do foro especial mesmo após o término do mandato, desde que os fatos investigados tenham ligação direta com o exercício da função pública. A defesa de Witzel argumenta a existência de irregularidades na condução das investigações e busca o encerramento do processo. Aliados consideram essa iniciativa jurídica uma peça-chave para manter a viabilidade da candidatura, pois, embora não haja uma condenação definitiva, o avanço da ação penal pode gerar constrangimentos jurídicos e políticos, expondo o ex-governador ao risco de uma eventual condenação durante o período eleitoral.
Wilson Witzel ascendeu ao governo do Rio de Janeiro em 2018, surfando na onda conservadora que marcou aquela eleição e derrotando o então favorito Eduardo Paes no segundo turno. No entanto, sua trajetória no cargo foi abruptamente interrompida. Em 2020, foi afastado sob graves acusações de envolvimento em irregularidades nos contratos emergenciais de saúde, celebrados durante a pandemia de Covid-19. As investigações apontaram suspeitas de superfaturamento na construção de hospitais de campanha e na aquisição de respiradores e medicamentos. No ano seguinte, Witzel sofreu impeachment e foi definitivamente destituído do cargo, além de ser condenado à inelegibilidade por cinco anos. Ele argumenta que esse prazo se encerra antes das próximas eleições estaduais, sustentando que foi alvo de perseguição política e busca nas urnas uma “nova chance” para sua carreira.
Perspectivas e o futuro político de Witzel
O caminho de Wilson Witzel de volta ao cenário político eleitoral do Rio de Janeiro se mostra sinuoso e repleto de obstáculos. A recusa ou, no mínimo, a postura cautelosa do Democracia Cristã em relação à sua candidatura, somada à complexa batalha jurídica que enfrenta no Supremo Tribunal Federal, configuram um cenário de alta incerteza. A necessidade de obter o aval do diretório estadual do DC e a tentativa de trancar uma ação penal por corrupção e lavagem de dinheiro são frentes simultâneas que exigem do ex-governador uma articulação política e jurídica intensa e bem-sucedida. O desfecho dessas questões será determinante para saber se Witzel conseguirá, de fato, concretizar sua intenção de disputar as próximas eleições e reescrever sua trajetória política após a cassação de seu mandato.
Perguntas frequentes
1. Por que o Democracia Cristã questionou a candidatura de Wilson Witzel?
O partido questionou a candidatura de Witzel porque, segundo a direção nacional, a decisão sobre filiações e candidaturas no Rio de Janeiro é exclusiva do diretório estadual. O anúncio público de Witzel antes da oficialização da filiação e do aval interno gerou desconforto e foi visto como uma interferência.
2. Quais são os principais obstáculos legais que Witzel enfrenta?
Witzel é réu em ações por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Atualmente, ele acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) com um habeas corpus para tentar trancar uma ação penal que tramita no Superior Tribunal de Justiça (STJ), fundamental para sua elegibilidade.
3. Qual foi o histórico de Witzel no governo do Rio de Janeiro?
Eleito em 2018, Witzel foi governador por pouco mais de um ano. Em 2020, foi afastado e, em 2021, sofreu impeachment por acusações de irregularidades em contratos emergenciais de saúde durante a pandemia de Covid-19, sendo condenado à inelegibilidade por cinco anos.
4. O que significa “crivo do diretório estadual” no contexto da candidatura de Witzel?
Significa que a filiação e a subsequente candidatura de Witzel dependerão da análise e aprovação do conselho do Democracia Cristã no estado do Rio de Janeiro. Não é um processo automático e exige o consentimento do grupo local.
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Fonte: https://diariodorio.com



