Em um curto período de apenas três dias, uma série de operações conjuntas realizadas pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) resultou na prisão de 36 policiais no estado, sob a grave suspeita de envolvimento com facções criminosas e o crime organizado. Essas ações de grande impacto lançaram luz sobre a profunda infiltração de grupos criminosos em setores das forças de segurança, revelando complexos esquemas de corrupção, proteção ao tráfico e extorsão. As investigações fazem parte de um esforço mais amplo, determinado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, conhecida como “ADPF das Favelas”, que visa apurar as conexões entre facções, agentes policiais e figuras políticas. A sequência de prisões expõe a dimensão do desafio enfrentado pelas autoridades para sanear as instituições e reafirmar a integridade da segurança pública fluminense.
Operações desvendam a infiltração criminosa
As recentes detenções são resultado de um trabalho meticuloso de investigação que busca desmantelar estruturas criminosas ramificadas dentro do estado do Rio de Janeiro. A Polícia Federal, em especial, tem atuado com uma força-tarefa dedicada a esse objetivo.
A força-tarefa Redentor II e a ADPF 635
As investigações que culminaram nas prisões desta semana estão diretamente vinculadas à ADPF 635, impetrada pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) em 2019. Essa ação no STF buscou limitar a letalidade policial em operações nas favelas do Rio, mas também determinou a apuração de conexões entre facções, policiais e agentes políticos. A Polícia Federal recebeu a missão específica de investigar o envolvimento de agentes públicos e políticos com organizações criminosas no Rio. Para isso, foi criada a força-tarefa Redentor II, composta por delegados e agentes de diversos estados do Brasil, especializados em investigações de organizações criminosas e lavagem de dinheiro, sob a coordenação dos delegados federais Geraldo Almeida e Samuel Escobar. O inquérito tramita sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, do STF.
As operações Zargun e Oricalco, precedentes às ações recentes, já haviam permitido a identificação de três núcleos principais de atuação do Comando Vermelho: um núcleo político, um núcleo policial e um núcleo operacional, diretamente ligado às atividades do tráfico de drogas. Essa estrutura demonstra a sofisticação da organização criminosa em sua tentativa de cooptar e controlar diferentes esferas do poder.
As fases da Operação Anomalia da Polícia Federal
A Operação Anomalia, conduzida pela Polícia Federal, foi dividida em três fases distintas, cada uma focando em diferentes aspectos da atuação do Comando Vermelho e seus aliados nas forças de segurança.
A terceira fase, deflagrada em uma terça-feira (11), teve como alvo um grupo descrito pelos investigadores como um braço armado de proteção da facção Comando Vermelho. Sete policiais militares foram presos sob a acusação de realizar escoltas para traficantes, inclusive em deslocamentos para consultas médicas e enterros. Este braço de segurança garantia a movimentação segura de criminosos, fornecendo-lhes uma blindagem contra a ação policial legítima.
A primeira fase da Operação Anomalia, ocorrida na segunda-feira (9), culminou na prisão do advogado Alessandro Pitombeira Carracena, ex-secretário estadual de Defesa do Consumidor, e do delegado federal Fabrizio Romano. As investigações apontam que Romano teria cobrado R$ 150 mil para impedir a extradição de um traficante internacional de interesse de Gabriel Dias de Oliveira, conhecido como Índio do Lixão, figura proeminente do tráfico. A advogada do traficante também foi detida nesta etapa.
A segunda fase da operação visou policiais civis da 44ª Delegacia de Polícia (Inhaúma). Foram presos o delegado Marcos Henrique de Oliveira Alves, seu irmão e comissário Franklin José de Oliveira Alves, e o agente Leandro Moutinho de Deus. O inquérito revela que esses policiais são acusados de coagir e extorquir chefes do Comando Vermelho, demandando valores exorbitantes para encerrar investigações.
Detalhes das prisões e esquemas investigados
As investigações aprofundam a compreensão dos métodos utilizados pelas facções para cooptar agentes públicos e garantir a impunidade de suas atividades.
Escolta para traficantes e a participação de um influenciador
Um dos episódios mais emblemáticos revelados pela terceira fase da Operação Anomalia envolve a escolta de traficantes. Investigações detalhadas apontam para o influenciador Hytalo Santos, que teria recebido proteção policial durante sua participação no “Baile da Escolinha”, um evento promovido por traficantes no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio. Segundo relatórios da PF, a ordem para que policiais garantissem a segurança do influenciador partiu de Gabriel Dias de Oliveira, o Índio do Lixão, apontado como um dos líderes do tráfico na região. O pedido teria sido direcionado ao policial militar Rodrigo Oliveira de Carvalho, identificado como o líder do grupo de PMs corruptos. Áudios interceptados durante a investigação indicam conversas entre o traficante e o policial para organizar essa escolta.
Vídeos do evento de julho de 2024 mostram Hytalo, Índio do Lixão e o então deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Jóias, juntos na comunidade. Esse material já havia sido utilizado na Operação Zargun, que levou à prisão do parlamentar e do traficante em setembro do mesmo ano. O influenciador Hytalo Santos também foi preso posteriormente e condenado a 11 anos e quatro meses de prisão por produção de conteúdo pornográfico envolvendo adolescentes, em um caso separado.
O elo político e a extorsão milionária
O aprofundamento das investigações da PF identificou um elo crucial entre o traficante Índio do Lixão e o núcleo político da organização criminosa. Esse papel seria desempenhado pelo advogado Alessandro Pitombeira Carracena, ex-secretário estadual de Defesa do Consumidor. Carracena já havia sido detido anteriormente ao lado de TH Jóias e do próprio Índio do Lixão. Sua nova prisão na primeira fase da Operação Anomalia reforça as suspeitas de seu papel como articulador entre o crime e o poder público.
No que tange à extorsão, a segunda fase da Operação Anomalia expôs um esquema de exigência de propina por parte de policiais civis da 44ª DP. De acordo com o inquérito, o comissário Franklin José de Oliveira Alves, “sob o comando do irmão”, o delegado Marcos Henrique de Oliveira Alves, teria exigido a exorbitante quantia de R$ 1,5 milhão de Índio do Lixão para encerrar uma investigação contra o traficante. Essa ação demonstra o nível de audácia e a dimensão financeira dos esquemas de corrupção envolvendo agentes públicos. Os policiais militares presos pela PF podem responder por crimes como organização criminosa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
Ação do MPRJ contra o jogo do bicho
Paralelamente às operações da Polícia Federal, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) também conduziu uma operação significativa, resultando na prisão de 19 policiais. Estes agentes são suspeitos de integrar um esquema de proteção ao jogo do bicho, uma contravenção penal que movimenta grandes somas de dinheiro e frequentemente está ligada a outras formas de criminalidade organizada. A simultaneidade e o número expressivo de prisões em diferentes frentes evidenciam a capilaridade da corrupção nas forças de segurança.
Implicações e o combate à corrupção
A sequência de operações e o elevado número de policiais presos em um período tão concentrado evidenciam a complexidade e a dimensão da infiltração do crime organizado nas estruturas do estado do Rio de Janeiro.
A extensão da rede criminosa
As ações conjuntas da PF e do MPRJ demonstram que as facções criminosas no Rio de Janeiro estabeleceram ligações diretas ou indiretas com agentes políticos e policiais que se desviaram de sua conduta. Essas conexões permitem que o crime organizado atue com maior impunidade, comprometendo a segurança pública e minando a confiança da população nas instituições. O desafio é imenso, mas as operações recentes sinalizam um compromisso renovado em desarticular essas redes e restaurar a integridade das forças de segurança. A continuidade das investigações e a responsabilização dos envolvidos são cruciais para a reconstrução da confiança e para garantir que a lei prevaleça.
Perguntas frequentes
Quantos policiais foram presos e em que período?
Ao todo, 36 policiais foram presos em apenas três dias, em operações distintas conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público do Rio de Janeiro.
Quais são as principais acusações contra os policiais detidos?
As acusações variam de escolta e proteção ao tráfico de drogas e contravenção (jogo do bicho) a extorsão de chefes de facções, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
O que é a ADPF 635 e qual sua relação com as investigações?
A ADPF 635, ou “ADPF das Favelas”, é uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental que tramita no STF. Ela determinou a investigação de conexões entre facções criminosas, policiais e agentes políticos no Rio de Janeiro, sendo o pano de fundo para as operações da Polícia Federal.
Quais organizações criminosas estão envolvidas nos esquemas?
As investigações da Polícia Federal apontam principalmente para o envolvimento de membros do Comando Vermelho, enquanto a operação do MPRJ visou esquemas de proteção ao jogo do bicho.
Qual a relevância do ex-secretário estadual e do delegado federal presos?
O ex-secretário Alessandro Pitombeira Carracena é apontado como um elo central entre o tráfico e o núcleo político da organização. O delegado federal Fabrizio Romano é suspeito de cobrar propina para impedir a extradição de um traficante internacional.
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Fonte: https://diariodorio.com



