Enquanto a Prefeitura do Rio anuncia um Réveillon que pode chegar a R$ 33 milhões, Copacabana — principal palco da festa — convive diariamente com uma realidade que não cabe no cartão‑postal: moradores de rua em número crescente, usuários de drogas ocupando calçadas, praças e áreas turísticas, comércio acuado e serviços públicos visivelmente insuficientes.
A contradição salta aos olhos. De um lado, fogos, shows, estruturas grandiosas e marketing internacional. Do outro, uma crise social permanente, que não se resolve com palco, luz e som. A pergunta que fica é inevitável: quais são as prioridades da cidade?
Festa para quem?
O Réveillon é frequentemente defendido como investimento em turismo, geração de empregos temporários e movimentação da economia. Esses argumentos não são novos — nem necessariamente falsos. O problema é que eles não podem servir como cortina de fumaça para uma situação que se agrava ano após ano.
Copacabana virou símbolo de abandono. O bairro mais famoso do Brasil passou a ser também vitrine da falência das políticas públicas de assistência social, saúde mental e segurança urbana. Usuários de drogas circulam livremente, muitos em situação extrema de vulnerabilidade. Moradores e turistas convivem com cenas de degradação humana que não deveriam ser naturalizadas.
R$ 33 milhões: quanto isso poderia mudar?
O valor anunciado para o evento levanta um debate legítimo. Com R$ 33 milhões, seria possível:
- Ampliar de forma estrutural a rede de acolhimento para pessoas em situação de rua;
- Investir em tratamento contínuo para dependência química, com equipes multidisciplinares;
- Reforçar programas de habitação social e reinserção no mercado de trabalho;
- Garantir presença permanente de serviços sociais em áreas críticas como Copacabana.
Não se trata de acabar com o Réveillon. Trata‑se de discutir proporção, timing e prioridade. A cidade pode — e deve — celebrar, mas não pode fingir que o problema não existe quando as luzes se apagam.
O espetáculo não pode substituir política pública
O Rio parece insistir em uma lógica antiga: eventos grandiosos para fora, descaso para dentro. A cada grande festa, repete‑se o discurso de sucesso, enquanto a realidade social segue empurrada para debaixo do tapete — ou para longe das câmeras.
Moradores de rua não são paisagem urbana. Usuários de drogas não são problema de polícia apenas. São cidadãos abandonados por um sistema que prefere gastar milhões em poucos dias de festa do que enfrentar soluções difíceis, contínuas e menos midiáticas.
A cidade real pede respostas
Copacabana não precisa apenas de fogos no céu. Precisa de ações concretas no chão. Precisa de políticas públicas que funcionem em janeiro, fevereiro, março — e não apenas na noite do dia 31.
Se há dinheiro para o espetáculo, também deveria haver coragem política para enfrentar a crise social que assola o bairro mais famoso do país. Caso contrário, o Réveillon segue sendo apenas isso: uma grande festa em cima de um problema que ninguém quer resolver.



