A saída de Dolf van den Brink do comando global da Heineken, anunciada recentemente, coincide com um período de turbulência sem precedentes para o mercado cervejeiro brasileiro. A retração nos volumes de vendas e a intensa pressão sobre as margens de lucro no país adicionam uma camada complexa à transição de liderança. Analistas de mercado observam com preocupação o cenário, reacendendo debates cruciais sobre a sustentabilidade dos investimentos e a viabilidade da rentabilidade das operações no Brasil. Este momento de adversidade global e local força a gigante cervejeira a reavaliar suas estratégias em um de seus mercados mais importantes, enquanto enfrenta um desafio duplo: a continuidade de sua expansão e a adaptação a um consumidor mais cauteloso.
Cenário adverso impulsiona mudança na heineken
A saída de Dolf van den Brink e o dilema brasileiro
O “timing” da mudança de comando na Heineken global gerou grande atenção, especialmente porque ocorre em meio a uma fase desafiadora para o setor no Brasil. Dolf van den Brink, que liderou a companhia, viu sua gestão global marcada por quedas de volume e pressão nas margens, com o cenário brasileiro desempenhando um papel significativo. Fontes do mercado apontam que os volumes fracos na América Latina, e particularmente no Brasil, foram fatores importantes que contribuíram para a pressão pela sua saída.
Paralelamente a essa transição, a Heineken mantém um ritmo acelerado em seus planos de expansão de capacidade produtiva no país. Um dos destaques é a planta de Passos, em Minas Gerais, projetada para adicionar cerca de 5 milhões de hectolitros anuais em sua fase inicial. Essa estratégia de crescimento em capacidade, em um momento de contração do mercado, levanta questionamentos. A analista Renata Cabral, do Citi, alerta que “a empresa segue adicionando capacidade em um momento de volumes excepcionalmente fracos, o que tende a alongar o prazo de retorno dos investimentos e levanta questionamentos sobre o ritmo de expansão no País”. O desafio reside em equilibrar o potencial de longo prazo com as realidades atuais de um mercado em retração, onde o retorno sobre os investimentos pode ser postergado.
Desempenho global e as projeções futuras
Os desafios enfrentados pela Heineken não se limitam ao Brasil, mas o impacto do mercado latino-americano é palpável em seus resultados globais. No terceiro trimestre do ano anterior, a companhia registrou uma queda de 4,3% em seu volume global de cerveja, com as Américas apresentando uma retração ainda mais acentuada, de 7,4%. Essa performance levou a um ajuste nas expectativas financeiras. A companhia indicou que o crescimento do lucro operacional orgânico para o ano seguinte (2025) deve se aproximar do limite inferior de sua projeção divulgada ao mercado, que variava entre 4% e 8%. Essa revisão reflete a prudência da empresa diante de um ambiente macroeconômico global incerto e, em grande parte, das dificuldades observadas em mercados-chave como o brasileiro.
O consumo em declínio: causas e consequências
Fatores climáticos e culturais impactam a demanda
A desaceleração do mercado de cerveja não é exclusiva da Heineken, mas sim um fenômeno que afeta toda a indústria brasileira. Dados da Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil) revelam que o consumo de cerveja em volume acumulou uma queda entre 6,5% e 7% de janeiro a setembro de 2025, em comparação com o mesmo período do ano anterior (2024). Paulo Petroni, diretor-geral da entidade, estima que o ano de 2025 deve fechar com uma retração de 5% a 6% em volume. Ele projeta uma queda de aproximadamente 15,5 bilhões de litros em 2024 para cerca de 14,7 bilhões de litros em 2025, uma redução bastante significativa.
Um dos principais fatores por trás dessa retração, segundo Petroni, foi a diminuição das ocasiões favoráveis ao consumo. “Tivemos menos dias de sol, temperaturas mais baixas do que em 2024 e poucos feriados com emenda. Isso impacta diretamente o consumo de cerveja”, explicou o executivo. A cerveja, sendo uma bebida frequentemente associada a eventos sociais e clima quente, sofre diretamente com essas variáveis.
A guerra pelo orçamento do consumidor
Além dos fatores climáticos, a competição pelo gasto discricionário do consumidor intensificou-se. As apostas esportivas, por exemplo, ganharam espaço no orçamento das famílias, desviando parte do dinheiro que antes poderia ser destinado a produtos como a cerveja. “Como o tíquete da cerveja é pequeno, parte desse dinheiro acabou sendo direcionada para as bets”, afirmou Petroni.
A deterioração da renda disponível, a manutenção de juros elevados e as mudanças graduais nos hábitos de consumo também exerceram pressão sobre a demanda. A NielsenIQ corrobora esse diagnóstico, indicando uma queda de cerca de 4% no volume de cerveja vendido ao consumidor final entre janeiro e novembro de 2025, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Gabriel Fagundes, diretor de Insights para a Indústria da NielsenIQ, esclarece que a retração não se deve a uma menor frequência de compra, mas sim à redução da quantidade consumida por ocasião. “O consumidor continua comprando cerveja, mas leva menos litros por vez, como forma de ajustar o orçamento”, destacou.
Reajustes de preço e a disputa no segmento premium
Em um ambiente de consumo fragilizado, a estratégia de preços da Heineken passou por uma notável inflexão. A empresa manteve os reajustes congelados de abril de 2024 até julho de 2025, buscando preservar volumes. No entanto, em julho de 2025, retomou os aumentos, aplicando um reajuste médio em torno de 6%, sinalizando uma mudança de postura em face das pressões de custos e margens.
Para Renata Cabral, do Citi, o longo período sem reajustes já indicava um cenário mais apertado no segmento premium. Nesse contexto, ela avalia que o portfólio premium da concorrente Ambev pode ter ganhado um certo grau de competitividade. Contudo, Cabral ressalta que a fraqueza generalizada dos volumes atualmente diminui a relevância da disputa por participação de mercado. “No momento, todos estão brigando por um bolo menor”, concluiu, sublinhando que a prioridade para as companhias é, antes de tudo, estabilizar e, se possível, reverter a tendência de queda nos volumes.
Perspectivas para o setor cervejeiro brasileiro
Sinais de recuperação e os desafios de longo prazo
Olhando para o ano de 2026, o mercado de cerveja no Brasil pode encontrar alguns estímulos adicionais que tendem a aliviar a pressão atual. Eventos como a Copa do Mundo, um calendário com mais feriados prolongados, bases de comparação mais fracas em relação aos anos anteriores e a perspectiva de um clima mais quente são fatores que podem favorecer o aumento das ocasiões de consumo.
Gabriel Fagundes, da NielsenIQ, projeta que esses elementos podem contribuir para uma melhora no setor. No entanto, ele pondera que essa melhora não deve se traduzir em uma virada rápida e substancial nos volumes. “A expectativa é de alguma melhora, muito mais ligada ao aumento das ocasiões de consumo do que a uma recomposição do orçamento das famílias”, afirmou. Isso sugere que, embora o ambiente possa se tornar mais propício ao consumo, o poder de compra do consumidor ainda será um fator limitante, e a recuperação plena dos volumes pré-crise pode demorar a se materializar, exigindo estratégias contínuas de adaptação por parte das cervejarias.
Conclusão
A recente transição de liderança na Heineken, em um cenário de retração do mercado cervejeiro brasileiro, ilustra a profunda interconexão entre as dinâmicas globais e os desafios locais. A queda no consumo, impulsionada por fatores climáticos, econômicos e mudanças nos hábitos dos consumidores, gerou uma pressão significativa sobre as margens e a rentabilidade das operações no Brasil, um mercado vital para a Heineken. Embora 2026 possa trazer um certo alívio com eventos favoráveis ao consumo, a recuperação total dos volumes dependerá de uma recomposição mais robusta do poder de compra das famílias. Para as grandes cervejarias, o momento exige cautela estratégica, adaptabilidade e um olhar atento para as tendências de um consumidor que busca ajustar seu orçamento.
Perguntas frequentes
Qual foi o principal motivo para a saída do CEO global da Heineken?
A saída de Dolf van den Brink do comando global da Heineken está intrinsecamente ligada às pressões de mercado, especialmente à queda nos volumes e às margens apertadas observadas globalmente, com os resultados fracos na América Latina e, particularmente, no Brasil, desempenhando um papel crucial.
Como o mercado brasileiro de cerveja se comportou recentemente?
O mercado brasileiro de cerveja registrou uma queda significativa, com o volume de consumo caindo entre 6,5% e 7% de janeiro a setembro de 2025, em comparação com o período anterior. Essa retração foi influenciada por menos dias de sol, temperaturas mais baixas, menos feriados prolongados, além da competição com gastos discricionários como apostas esportivas e a deterioração da renda disponível.
Quais são as perspectivas para a recuperação do consumo de cerveja no Brasil?
Para 2026, espera-se alguma melhora no consumo de cerveja, impulsionada por eventos como a Copa do Mundo, mais feriados e a expectativa de temperaturas mais quentes. No entanto, essa melhora é vista como ligada principalmente ao aumento das ocasiões de consumo, e não a uma recomposição significativa do orçamento das famílias, sugerindo uma recuperação gradual e desafiadora.
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Fonte: https://www.infomoney.com.br



