Historicamente ofuscado por seus vizinhos gigantes, Argentina e Brasil, o Paraguai, uma nação sem litoral e com uma economia modesta, era frequentemente visto apenas como um território de passagem. Contudo, essa percepção está rapidamente se transformando. O Paraguai decola na economia e, para surpresa de muitos, está emergindo como um vibrante polo de atração para investimentos na América Latina. Impulsionado por uma combinação de políticas fiscais favoráveis, crescimento econômico constante e um alinhamento estratégico com os Estados Unidos, o país de 6,1 milhões de habitantes vive um momento de destaque. A capital, Assunção, reflete essa efervescência com o surgimento de novas torres e concessionárias de carros de luxo, enquanto a infraestrutura local se esforça para acompanhar o ritmo acelerado de desenvolvimento e a crescente demanda.
Um novo cenário de prosperidade e atração de capital
O dinamismo econômico do Paraguai tem capturado a atenção de empreendedores e investidores de toda a América Latina. Atraídos por um ambiente de negócios promissor e uma carga tributária competitiva, muitos estão fixando residência e investindo pesadamente no país. No ano passado, as autoridades de imigração registraram quase 50 mil pedidos de residência, um reflexo claro dessa movimentação. Cerca de metade desses pedidos veio de brasileiros, mas também houve uma parcela significativa de argentinos, alemães, bolivianos e espanhóis.
Impostos baixos e oportunidades de negócios impulsionam investimentos
A Lei de “Maquila” é um dos pilares desse crescimento. Esse regime especial permite que empresas estrangeiras operem no Paraguai produzindo exclusivamente para exportação, com uma carga tributária extremamente reduzida. Essa política, projetada para atrair indústrias e fomentar a geração de empregos, revelou-se um dos principais motores da economia paraguaia. Felipe Bertolini, um jovem investidor de São Paulo, exemplifica essa tendência. Ele e seu pai decidiram buscar residência no Paraguai, citando a carga tributária brasileira como um impedimento para o empreendedorismo. “O Brasil está empurrando as pessoas para o Paraguai porque seus impostos tornam o empreendedorismo inviável”, afirmou Bertolini.
As exportações sob o regime de “Maquila” experimentaram um crescimento notável, quadruplicando na última década e atingindo cerca de US$ 1,2 bilhão no ano passado. A Blue Design, empresa do empresário têxtil argentino Jorge Bunchicoff, é um exemplo de sucesso. Sua moderna fábrica nos arredores de Assunção exporta anualmente cerca de um milhão de peças de denim premium, incluindo jeans e jaquetas, para mercados globais como EUA, Reino Unido e Japão. A empresa fornece para marcas sofisticadas como Lacoste e Good American, e sua própria marca, Dala, tem produtos vendidos por mais de US$ 300. Bunchicoff, com 30 anos de experiência no Paraguai, credita o sucesso à combinação de impostos baixos, energia e mão de obra baratas, além da previsibilidade econômica, algo que, segundo ele, seria inviável na Argentina ou no Brasil devido aos altos custos e “relações trabalhistas tóxicas”.
O afluxo de novos imigrantes e a expansão da economia também estão impulsionando o consumo interno. O Shopping del Sol, um sofisticado centro comercial no distrito financeiro de Assunção, recebe cerca de 120 mil visitantes por semana, um aumento de 30% nos últimos três anos, em parte atribuído à imigração. A diretora do shopping, Selene Rojas, compara a situação atual com o passado: “Antes éramos como a garota mais feia do baile. Hoje, todo mundo nos chama para dançar”. Ela observa o impacto direto: “Você pode ver claramente a chegada de estrangeiros. Os hotéis estão lotados. Os restaurantes estão lotados. A frota de carros cresceu enormemente. Nosso aeroporto não consegue acompanhar.”
Estratégia geopolítica e reconhecimento internacional
A ascensão do Paraguai não se baseia apenas em fatores internos, mas também em uma reorientação estratégica de sua política externa. Sob a liderança do presidente Santiago Peña, um economista de 47 anos, o país tem buscado um alinhamento mais próximo com os Estados Unidos, o que reforça sua credibilidade no cenário internacional e complementa sua estratégia de atração de investimentos.
Alinhamento com os Estados Unidos e Taiwan
Desde sua posse em agosto de 2023, o presidente Peña realizou mais de 50 viagens internacionais, divulgando o Paraguai como um país aberto para negócios. Ele apoiou publicamente a iniciativa do presidente Donald Trump de fortalecer a influência de Washington na região e participou de uma cúpula de líderes latino-americanos em Miami, focada na coordenação de ações de segurança. Christopher Landau, subsecretário de Estado americano, elogiou o Paraguai como um “grande amigo”, destacando seu histórico de votações nas Nações Unidas e o reconhecimento contínuo de Taiwan. “Eles não estão dançando conforme a música da China”, afirmou o diplomata, em referência à postura singular do Paraguai na região.
Em uma América do Sul cada vez mais ligada ao comércio e investimento chinês, o Paraguai é a única nação que ainda mantém relações diplomáticas com Taiwan. Essa decisão, que remonta a 1957, implica abrir mão da venda de carne bovina e soja para a China, além de bilhões de dólares em investimentos chineses em infraestrutura. No entanto, o alinhamento com os EUA parece trazer outros benefícios. Na semana seguinte à cúpula de Miami, parlamentares paraguaios aprovaram um acordo de defesa que permite a entrada de tropas americanas no país.
A visão de Peña para o Paraguai é um “renascimento de um gigante”, remetendo a um período de prosperidade em meados do século XIX, quando o país era líder regional em avanços tecnológicos. Após décadas de ditadura, que terminou em 1989, o país embarcou em uma transição para a democracia e, desde o início dos anos 2000, adotou políticas fiscais e monetárias sólidas.
Reconhecimento de crédito e solidez fiscal
A credibilidade econômica do Paraguai tem sido reconhecida globalmente. Em 2024, o país conquistou o status de crédito de grau de investimento pela Moody’s Ratings, e no ano anterior pela S&P Global. Essa evolução é fruto de um crescimento anual em torno de 4% nas últimas duas décadas e de uma inflação mantida em um dígito. O presidente Peña projeta um futuro ainda mais próspero: “O Paraguai continuará crescendo mais do que os outros países da América do Sul. Muito em breve, terá a maior renda per capita, acima do Uruguai e acima do Chile.”
A confiança dos investidores também se manifesta no mercado de dívida pública. Após captar cerca de US$ 500 milhões em 2024 com sua primeira emissão de títulos de dívida globais denominados em guaranis, o Paraguai emitiu um recorde de US$ 1 bilhão em dívida na moeda local no mês passado. Essa é uma mudança significativa em relação a uma década atrás, quando a primeira emissão de títulos de US$ 1 bilhão do país foi em dólares. O ministro das Finanças, Carlos Fernández, descreveu a mais recente emissão em guaranis como “um diploma de graduação”, enfatizando a evolução da credibilidade da economia paraguaia.
Desafios e o futuro da ascensão paraguaia
Apesar do notável progresso econômico e do crescente otimismo, o Paraguai enfrenta desafios significativos que, se não forem abordados, podem frear seu crescimento sustentável e a mobilidade social. A corrupção continua sendo uma preocupação premente; de acordo com o último índice da Transparência Internacional, apenas a Venezuela supera o Paraguai como a nação mais corrupta da América do Sul.
Além disso, a estrutura do mercado de trabalho ainda apresenta vulnerabilidades, com mais de 60% da força de trabalho atuando na economia informal, conforme dados governamentais. Embora a pobreza tenha diminuído drasticamente desde o início dos anos 2000, cerca de um quinto da população paraguaia ainda vive abaixo da linha da pobreza.
No entanto, o esforço contínuo para tornar o Paraguai fiscalmente mais responsável tem gerado resultados positivos, especialmente na gestão da dívida pública e na atração de investimentos. O momentum econômico é inegável, e a aposta em um ambiente pró-negócios e em alianças estratégicas parece estar pavimentando o caminho para um futuro de maior prosperidade. Para que essa ascensão se consolide e beneficie toda a população, será crucial enfrentar os desafios sociais e de governança com a mesma determinação que impulsionou o país até aqui.
Perguntas frequentes
1. Por que o Paraguai está atraindo tantos investidores atualmente?
O Paraguai atrai investidores devido a impostos baixos, especialmente através da Lei de “Maquila” para empresas exportadoras, uma economia estável com crescimento constante, inflação controlada e um ambiente político que favorece negócios, incluindo o alinhamento com os Estados Unidos.
2. Qual é a relação do Paraguai com os Estados Unidos e Taiwan?
O Paraguai mantém uma forte aliança estratégica com os Estados Unidos, apoiando suas iniciativas na região e participando de cúpulas de segurança. É a única nação sul-americana que reconhece Taiwan diplomaticamente, renunciando ao comércio e investimento chinês em favor dessa relação e de sua parceria com os EUA, que resultou em acordos de defesa.
3. Quais são os principais desafios econômicos e sociais que o Paraguai ainda enfrenta?
Os principais desafios incluem altos níveis de corrupção, uma grande parcela da força de trabalho (mais de 60%) atuando na economia informal e uma taxa de pobreza que ainda atinge cerca de um quinto da população, apesar de ter diminuído consideravelmente.
Com a economia em transformação e novas oportunidades surgindo, o Paraguai consolida-se como um ator relevante na América do Sul. Para aprofundar-se nos detalhes de seu desenvolvimento e entender como essa ascensão impacta a região, continue acompanhando as análises e notícias econômicas.
Fonte: https://www.infomoney.com.br



