O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), realizou uma importante visita a Brasília na última terça-feira, buscando reequilibrar a balança de sua relação com o governo federal. Após meses de acúmulo de atritos com a esquerda e sinalizações públicas ao campo conservador, o movimento de Eduardo Paes junto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teve como objetivo reafirmar seu compromisso eleitoral e dissipar uma crescente crise de confiança no Planalto. A iniciativa de Paes foi impulsionada pelo avanço de articulações internas no Partido dos Trabalhadores fluminense, que passaram a incluir o deputado Rodrigo Bacellar (União Brasil), ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), e pela iminente ameaça de o PT lançar um nome próprio para a disputa do governo estadual em 2026. Este cenário complexo exigiu uma ação política rápida e decisiva do atual prefeito.
O reencontro em Brasília e os acertos políticos
Em um encontro reservado, fora da agenda oficial, Eduardo Paes buscou alinhar suas estratégias futuras com a cúpula federal. A conversa foi crucial para pacificar as tensões e traçar um caminho de colaboração, visando as próximas disputas eleitorais no cenário fluminense e nacional.
Reafirmação de compromisso e planos para 2026
Durante a reunião com o presidente Lula, Eduardo Paes reiterou sua intenção de deixar a prefeitura do Rio de Janeiro em 20 de março de 2026. Esta movimentação estratégica visa permitir que ele concorra ao Palácio Guanabara, sede do governo estadual, no mesmo ano. A declaração foi acompanhada de um juramento de lealdade a Lula, um gesto político significativo para apaziguar as desconfianças acumuladas. Como demonstração prática desse compromisso, Paes se comprometeu a apoiar a deputada Benedita da Silva (PT) para o Senado. Este recuo é notável, considerando que a estratégia inicial de seu grupo político previa uma chapa majoritária sem candidatos petistas, o que demonstra a força da pressão exercida pelo Planalto e a necessidade de Paes de se realinhar. O apoio a Benedita não só fortalece a chapa petista no Rio, mas também sinaliza uma abertura para futuras alianças, um passo fundamental para quem busca apoio federal.
A urgência da viagem e o tabuleiro de Ceciliano
A celeridade da viagem de Paes a Brasília pode ser compreendida pelo avanço de um plano que ganhou força no PT do Rio de Janeiro. Trata-se da possibilidade de André Ceciliano, atual secretário de Assuntos Parlamentares do governo federal e ex-presidente da Alerj, ser lançado como candidato em uma eleição indireta para um mandato-tampão de governador. Este cenário seria ativado caso o atual governador Cláudio Castro (PL) decida renunciar em abril de 2026 para disputar uma vaga no Senado. Segundo a Constituição estadual, nestes casos, o Tribunal de Justiça seria o responsável por convocar uma votação indireta na Alerj. Ceciliano, que possui forte trânsito no Legislativo fluminense e respaldo de setores do Planalto, poderia assim assumir o comando do Executivo estadual às vésperas da campanha, posicionando-se como um candidato natural à reeleição ou, no mínimo, como um ator central na disputa. Analistas políticos convergem na avaliação de que tal estratégia eleitoral por parte de Ceciliano dificilmente seria executada sem o aval explícito do presidente Lula e da direção nacional do Partido dos Trabalhadores.
A entrada de Rodrigo Bacellar no jogo
O que mais alarmou Eduardo Paes e o impulsionou a buscar o diálogo em Brasília foi a entrada de Rodrigo Bacellar (União Brasil) nesse complexo jogo político. Bacellar, que se afastou da presidência da Alerj após uma operação da Polícia Federal, tem atuado nos bastidores para viabilizar a candidatura de André Ceciliano. Sua movimentação é vista como uma tentativa de bloquear rivais internos e externos, buscando consolidar sua própria influência e rearranjar o cenário político estadual. Bacellar se opõe veementemente à hipótese de Nicola Miccione, chefe da Casa Civil e figura técnica, assumir o governo em um eventual cenário de vacância. Da mesma forma, ele trabalha para frear a ascensão do deputado Douglas Ruas (PL), um aliado do bolsonarismo e apadrinhado do deputado federal Altineu Cortes (PL). Ruas também é filho do Capitão Nelson, o bem avaliado prefeito de São Gonçalo, o segundo maior reduto eleitoral do estado do Rio de Janeiro, o que adiciona um peso significativo à sua potencial candidatura. A articulação de Bacellar, portanto, cria um novo eixo de tensão e incerteza, forçando Paes a reavaliar sua posição.
A crescente desconfiança petista e os desafios de Paes
Desde o segundo semestre do ano passado, a cúpula do PT tem acompanhado com crescente desconfiança os movimentos e declarações de Eduardo Paes. Integrantes do governo federal e figuras proeminentes do partido, como Gleisi Hoffmann, Lindbergh Farias e o próprio André Ceciliano, têm apontado uma sequência de gestos que consideram incompatíveis com a aliança nacional.
Gestos “incompatíveis” e a reação do PT
Entre os episódios que geraram atrito, destaca-se o apoio público de Paes ao pastor Silas Malafaia, um dos principais conselheiros do ex-presidente Jair Bolsonaro. Esse apoio ocorreu após Malafaia se tornar alvo de investigação da Polícia Federal, o que foi interpretado como um desalinhamento direto com o governo Lula. Outro ponto de discórdia foi a declaração de Paes, em um evento na Baixada Fluminense, de que caminharia eleitoralmente com o PL, partido que abriga o bolsonarismo. Por fim, a crítica do vice-prefeito Eduardo Cavaliere à política de segurança do governo Lula, classificando-a como “lero-lero” após uma operação policial no Complexo do Alemão, adicionou mais lenha à fogueira. Até recentemente, esses episódios não haviam provocado reações institucionais diretas do PT, limitando-se a críticas pontuais de quadros como Marcelo Freixo e José Dirceu. Contudo, a persistência desses gestos elevou o nível de preocupação dentro do partido.
A estratégia eleitoral de Paes sob ameaça
A perspectiva de uma candidatura petista competitiva no Rio de Janeiro representa um sério obstáculo para a estratégia de Eduardo Paes. O prefeito planejava uma vitória no primeiro turno da eleição para o governo estadual em 2026. A entrada de um nome forte do PT na disputa não apenas pulveriza os votos, mas também diminui consideravelmente o peso político das críticas que Paes e seus aliados vinham fazendo à esquerda, bem como o impacto de seus flertes com a direita. Essa postura ambivalente, que buscava capitalizar votos de diferentes espectros políticos, torna-se menos eficaz diante de um adversário robusto e ideologicamente definido. A possível candidatura de um nome petista forçaria Paes a uma campanha mais polarizada, comprometendo sua capacidade de navegar entre diferentes eleitorados e dificultando a construção de uma base de apoio ampla o suficiente para uma vitória rápida.
O dilema dos eleitores conservadores
No Planalto, o recente movimento de Paes de buscar Lula foi interpretado como uma tentativa de contenção de danos e um esforço para “calçar as sandálias da humildade”. No entanto, dirigentes petistas ponderam que a confiança ainda está longe de ser plena. Segundo aliados, o presidente Lula trabalha com cenários nacionais incertos e mantém dúvidas sobre a real disposição de Paes em sustentar a aliança caso o PSD, seu partido, venha a apoiar outro nome à Presidência da República. O histórico recente de Paes também pesa; ele perdeu duas disputas ao governo do estado (em 2006 e 2018) e observa com atenção o peso eleitoral do bolsonarismo no interior e na Baixada Fluminense. Em 2022, Jair Bolsonaro venceu Lula em 72 municípios do Rio, e Cláudio Castro derrotou Marcelo Freixo no primeiro turno com ampla vantagem. Na semana passada, Paes recebeu no Rio o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, para discutir cenários eleitorais que envolvem tanto o Palácio do Planalto quanto o controle da máquina estadual. A avaliação no entorno do prefeito é que um vínculo excessivo com o PT poderia afastar eleitores conservadores que são estratégicos para sua vitória.
Traumas antigos e a cautela do PT fluminense
No PT fluminense, a cautela em relação a alianças com Eduardo Paes é alimentada por experiências passadas. O episódio de 2014, quando a dissidência liderada pelo então presidente da Alerj, Jorge Picciani (MDB), associou a candidatura de Luiz Fernando Pezão ao governo do estado ao então presidenciável Aécio Neves (PSDB), mesmo com Dilma Rousseff (PT) no cargo, ainda serve como um alerta contra acordos considerados frágeis. Esse trauma político reforça a posição de membros do PT que preferem uma via própria ou alianças mais sólidas e ideologicamente alinhadas. Enquanto isso, o avanço das conversas entre petistas e Rodrigo Bacellar mantém o sinal de alerta aceso não apenas no gabinete de Paes, mas também no do governador Cláudio Castro. A disputa pelo controle da Alerj e pela cadeira de governador interino transformou-se, antes mesmo do início oficial da campanha, em um dos principais focos de tensão da sucessão fluminense, evidenciando a complexidade e a volatilidade do cenário político no Rio de Janeiro.
Cenários futuros e as tensões na sucessão fluminense
A visita de Eduardo Paes a Brasília e seus compromissos subsequentes com o presidente Lula representam um ponto de inflexão na intrincada teia política do Rio de Janeiro. O prefeito busca reassegurar sua posição como um aliado confiável do governo federal, ao mesmo tempo em que manobra para garantir sua viabilidade eleitoral em 2026, enfrentando tanto a desconfiança interna do PT quanto a crescente influência de forças conservadoras no estado. A complexidade do tabuleiro político fluminense, com a possível entrada de André Ceciliano em uma eleição indireta e as articulações de Rodrigo Bacellar, demonstra que a sucessão ao Palácio Guanabara será disputada intensamente. A capacidade de Paes de equilibrar alianças e atrair diferentes espectros do eleitorado será crucial, mas a memória de traumas passados no PT e a força do bolsonarismo continuam a ser fatores decisivos. O cenário desenhado é de intensa negociação e imprevisibilidade, com a disputa pelo comando estadual se consolidando como um dos pontos mais quentes da política brasileira.
Perguntas frequentes
Por que Eduardo Paes visitou o presidente Lula em Brasília?
Eduardo Paes buscou o presidente Lula para reafirmar seu compromisso eleitoral e tentar conter uma crise de confiança no Planalto. A visita foi motivada por atritos acumulados com a esquerda e pela ameaça de o PT lançar uma candidatura própria ao governo do Rio em 2026.
Quais são os planos de Eduardo Paes para as eleições de 2026?
Paes informou a Lula que pretende deixar a prefeitura do Rio de Janeiro em 20 de março de 2026 para disputar o Palácio Guanabara, sede do governo estadual. Ele também se comprometeu a apoiar a deputada Benedita da Silva (PT) ao Senado como gesto político.
Como o PT tem reagido aos recentes movimentos políticos de Paes?
A cúpula do PT tem tratado os movimentos de Paes com desconfiança, apontando gestos considerados incompatíveis com a aliança nacional, como o apoio ao pastor Silas Malafaia, a declaração de caminhar com o PL e críticas à política de segurança do governo Lula. A confiança plena ainda não foi restabelecida.
Qual a relevância de André Ceciliano no atual cenário político fluminense?
André Ceciliano é peça central em um plano do PT que prevê sua possível disputa por um mandato-tampão de governador em uma eleição indireta, caso o governador Cláudio Castro renuncie. Com forte trânsito na Alerj e apoio do Planalto, ele poderia se tornar um ator crucial na disputa de 2026.
Qual o papel de Rodrigo Bacellar nas articulações atuais?
Rodrigo Bacellar (União Brasil) está articulando nos bastidores para viabilizar a candidatura de André Ceciliano, numa tentativa de bloquear rivais internos e externos no cenário político do Rio de Janeiro. Sua oposição a Nicola Miccione e Douglas Ruas é parte dessa estratégia.
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Fonte: https://diariodorio.com



