O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) se prepara para um julgamento crucial na próxima quarta-feira, 10 de abril, que pode redefinir o cenário do varejo pet brasileiro. Em pauta, está a proposta de fusão Petz-Cobasi, uma operação que, desde meados de 2024, vem sendo analisada de perto pelo órgão regulador. Diante da iminente decisão, a Petlove, terceira maior varejista do setor, intensificou sua participação no processo. Inicialmente defensora da reprovação total da união entre as duas gigantes, a empresa agora manifesta interesse em adquirir os ativos que porventura sejam desinvestidos como “remédio” concorrencial, caso a fusão seja aprovada com restrições. Esta nova posição da Petlove adiciona uma camada estratégica complexa ao já intrincado processo de análise da união das duas maiores redes de pet shops do país, prometendo desdobramentos significativos para todo o mercado.
O intrincado cenário da fusão Petz-Cobasi no Cade
A fusão entre Petz e Cobasi representa um marco potencial no setor de produtos e serviços para animais de estimação no Brasil. Juntas, as duas empresas formariam um conglomerado de proporções inéditas, controlando uma fatia substancial do mercado varejista, tanto físico quanto online. É nesse contexto que entra o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), órgão federal cuja missão primordial é garantir a livre concorrência, prevenindo e reprimindo infrações à ordem econômica, como a formação de monopólios ou oligopólios que possam prejudicar consumidores e inovação.
Desde que a operação foi anunciada e submetida à análise do Cade, o processo tem sido marcado por discussões aprofundadas sobre os potenciais impactos concorrenciais. A preocupação central do Cade é avaliar se a união das duas maiores empresas do setor resultaria em uma concentração excessiva de mercado, limitando opções para os consumidores, dificultando a entrada de novos concorrentes ou até mesmo impondo barreiras à inovação. A análise minuciosa envolveu estudos de mercado, pareceres de especialistas e a participação de terceiros interessados, como a Petlove, que buscam resguardar seus próprios interesses e a dinâmica do mercado. A possibilidade de a operação ser aprovada “com remédios” reflete a complexidade da situação, onde o Cade busca um equilíbrio entre a liberdade de empresas se unirem e a necessidade de proteger a concorrência.
A postura inicial da Petlove e a preocupação concorrencial
A Petlove, que se consolida como uma das maiores players do setor pet no Brasil, acompanhou o processo de fusão Petz-Cobasi como “terceira interessada” desde o início das análises do Cade. Essa condição lhe confere o direito de apresentar argumentos e dados para influenciar a decisão do conselho, defendendo a livre concorrência. Inicialmente, a Petlove adotou uma postura firme, defendendo a reprovação integral da operação. Sua argumentação baseava-se na convicção de que a união de Petz e Cobasi criaria um gigante com poder de mercado excessivo, capaz de ditar preços, condições comerciais e até mesmo as tendências do setor, sufocando a concorrência e limitando as escolhas dos consumidores.
No entanto, em uma petição apresentada mais recentemente, a Petlove demonstrou uma mudança estratégica em sua abordagem. Embora tenha reiterado sua “convicção de que a operação deverá ser reprovada”, a empresa reconheceu a “natural tentativa de as requerentes buscarem viabilizar a fusão por meio de um conjunto de remédios”. Essa flexibilização indica que, diante da probabilidade de o Cade buscar uma solução intermediária — a aprovação com restrições —, a Petlove está se posicionando proativamente para mitigar os impactos negativos para o mercado e, ao mesmo tempo, fortalecer sua própria posição. A preocupação da empresa permanece focada em garantir um ambiente competitivo saudável, mesmo que isso signifique participar ativamente da solução proposta pelo órgão regulador.
Estratégia de desinvestimento: o “remédio” e o papel da Petlove
A aprovação de fusões e aquisições pelo Cade frequentemente vem acompanhada de “remédios concorrenciais”. Estes são instrumentos utilizados pelo órgão para mitigar os efeitos anticompetitivos de uma operação, garantindo que a concentração de mercado não prejudique a concorrência. Dentre os remédios mais comuns, o desinvestimento de ativos se destaca. Ele consiste na venda de partes do negócio (como lojas, centros de distribuição, marcas ou licenças em determinadas regiões) para um terceiro, a fim de reduzir o poder de mercado da nova entidade resultante da fusão e permitir que o comprador se torne um concorrente viável.
No contexto da fusão Petz-Cobasi, o desinvestimento de ativos é considerado um dos possíveis “remédios” para permitir a aprovação da operação. A equipe jurídica da Petlove salienta que o Cade estabelece critérios rigorosos para o comprador desses ativos, assegurando que ele tenha a capacidade e a independência necessárias para atuar efetivamente no mercado. Esses critérios incluem viabilidade econômica do comprador, sua independência das partes que se fundem e a capacidade de garantir a efetividade do remédio, ou seja, que a venda realmente resolva as preocupações concorrenciais. O processo envolve a identificação de um comprador pelas empresas envolvidas na fusão, que então o submetem à aprovação do conselho do Cade. Somente após a validação do órgão regulador, a transação de desinvestimento pode prosseguir.
Petlove se posiciona como candidata ideal para a aquisição
É nesse cenário de potenciais desinvestimentos que a Petlove se apresenta como a “candidata natural à aquisição dos ativos”. A empresa fundamenta sua reivindicação em diversos fatores que a qualificam como a escolha mais lógica e eficaz para o Cade. Em primeiro lugar, seu porte e posicionamento de mercado já a estabelecem como uma das principais forças do setor, ainda que em escala inferior às gigantes Petz e Cobasi. A Petlove possui uma robusta atuação online e uma crescente estratégia omnicanal, o que lhe confere uma capilaridade e reconhecimento de marca importantes no território nacional.
A Petlove argumenta que seu faturamento é significativamente maior do que o de outras redes menores do mercado, como Petcamp, Petland e American Pet, sendo “quase cinco vezes maior” do que essas concorrentes. Essa superioridade financeira e operacional seria crucial para garantir que os ativos desinvestidos sejam adquiridos por uma empresa com capacidade real de competir com o novo gigante formado pela fusão Petz-Cobasi. A empresa defende ser a “única empresa que, embora em grau incomparavelmente menor que as requerentes, possui atuação nacional relevante por meio do mercado online, reconhecimento de marca e estratégia omnicanal”. Essa capacidade de operar em múltiplas frentes e em escala nacional é vista pela Petlove como essencial para absorver os ativos e transformá-los em um polo de competição efetivo, garantindo que o “remédio” do Cade de fato promova um ambiente concorrencial saudável e não apenas transfira ativos sem impacto real na concentração de mercado.
A decisão iminente e seus desdobramentos no mercado pet
A decisão do Conselho Administrativo de Defesa Econômica na próxima quarta-feira é, sem dúvida, um dos momentos mais aguardados pelo setor pet brasileiro. O tribunal administrativo do Cade terá que avaliar as complexidades da fusão Petz-Cobasi, considerando tanto os potenciais benefícios para as empresas envolvidas quanto os riscos para a concorrência e os consumidores. O fato de a Superintendência-Geral do Cade ter aprovado a operação inicialmente sem restrições, e o processo ter subido para o tribunal após um recurso, sinaliza a divergência de entendimentos e a natureza desafiadora do caso.
Se a fusão for aprovada com remédios, como o desinvestimento de ativos, a entrada da Petlove como potencial compradora pode reconfigurar ainda mais o xadrez do varejo pet. Essa movimentação estratégica não apenas consolidaria a posição da Petlove como um player ainda mais forte, mas também garantiria que uma parte dos ativos desinvestidos caísse nas mãos de um concorrente capaz de manter a pressão competitiva sobre o novo gigante. Independentemente do desfecho, o mercado pet brasileiro, que tem mostrado um crescimento constante, está prestes a entrar em uma nova fase. A decisão impactará diretamente as estratégias de expansão de grandes redes, a capacidade de pequenas empresas competirem e, em última instância, as opções e os preços para os milhões de tutores de animais de estimação em todo o país.
Perguntas frequentes
1. O que é o Cade e qual seu papel na análise da fusão Petz-Cobasi?
O Cade, Conselho Administrativo de Defesa Econômica, é uma autarquia federal brasileira responsável por zelar pela livre concorrência no mercado. No caso da fusão Petz-Cobasi, seu papel é analisar se a união das duas empresas resultaria em uma concentração de mercado prejudicial, podendo aprovar, reprovar ou impor condições (remédios) para garantir um ambiente competitivo saudável.
2. Por que a Petlove, inicialmente contra a fusão, agora se oferece para comprar ativos desinvestidos?
A Petlove ainda defende a reprovação da fusão, mas reconhece a possibilidade de o Cade aprová-la com “remédios”, como o desinvestimento de ativos. Ao se oferecer como compradora, a empresa busca atuar proativamente para garantir que esses ativos sejam adquiridos por um player robusto o suficiente para manter a concorrência no mercado, mitigando os efeitos negativos da fusão e fortalecendo sua própria posição.
3. O que são “remédios concorrenciais” e como o desinvestimento de ativos funciona neste contexto?
Remédios concorrenciais são condições impostas pelo Cade para mitigar os impactos anticompetitivos de uma fusão ou aquisição. O desinvestimento de ativos é um desses remédios, onde partes do negócio (como lojas ou centros de distribuição em certas regiões) são vendidas para um terceiro. O objetivo é reduzir o poder de mercado da empresa resultante da fusão e permitir que o comprador se torne um novo concorrente efetivo, reequilibrando o cenário.
Para acompanhar de perto os próximos capítulos dessa decisão que promete reconfigurar o varejo pet, fique atento às atualizações e análises do mercado.
Fonte: https://www.infomoney.com.br



