Uma série de furtos tem abalado a comunidade e reacendido o debate sobre a segurança e a preservação do patrimônio cultural no Centro do Rio de Janeiro. Templos com séculos de história, que guardam em suas paredes e em seus acervos a memória e a arte de gerações, tornaram-se alvos de criminosos nas últimas semanas, gerando preocupação entre fiéis e órgãos de defesa do patrimônio. Os incidentes mais recentes envolvendo igrejas históricas do Centro do Rio revelam a vulnerabilidade de construções que, além de seu valor religioso, representam um legado inestimável para a identidade carioca e brasileira. A situação exige uma resposta urgente e coordenada para proteger esses bens tombados.
Patrimônio ameaçado: o caso Santo Antônio dos Pobres
Ataque noturno e danos recorrentes
O caso mais recente de violação ocorreu na madrugada de uma terça-feira, quando a Igreja Santo Antônio dos Pobres, situada na Rua dos Inválidos, foi alvo de criminosos. Foram furtadas as ferragens que adornam os apliques da porta principal do templo, um detalhe arquitetônico de grande valor histórico e estético. O incidente não foi isolado; na noite anterior, a mesma porta já havia sofrido uma tentativa de arrombamento, indicando uma persistência nas ações criminosas contra a igreja.
Segundo relatos do provedor da Irmandade responsável pela igreja, dois indivíduos, supostamente moradores de rua, foram vistos retirando os metais durante a madrugada entre segunda e terça-feira. Um registro formal do ocorrido foi feito na 5ª Delegacia de Polícia (Mém de Sá), que agora investiga o caso. A vulnerabilidade do templo foi agravada por circunstâncias naturais: fortes chuvas nos dias anteriores causaram a queda de um raio, danificando a fonte de energia da igreja e inutilizando as câmeras de segurança, que poderiam ter capturado imagens dos criminosos.
A porta da Igreja Santo Antônio dos Pobres possui um simbolismo particular, sendo uma cópia fiel de uma estrutura existente na Basílica de Saint-Denis, na França. Essa conexão com um dos marcos arquitetônicos mais importantes da história europeia confere ainda mais relevância à sua integridade. Diante da sequência de ataques e da proximidade do período de Carnaval, que historicamente atrai um grande fluxo de pessoas para o centro da cidade, o provedor expressou profunda preocupação. Ele afirmou a necessidade de remover os apliques restantes para evitar novos furtos, lamentando a percepção de abandono da região.
A Igreja Santo Antônio dos Pobres é um tesouro arquitetônico e histórico. Localizada na esquina das ruas dos Inválidos e do Senado, ela é tombada por importantes instituições de proteção do patrimônio, como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Estado do Rio de Janeiro, além de integrar o catálogo da Comissão de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural da Arquidiocese do Rio. Fundada no início do século XIX, o templo se prepara para celebrar seus 220 anos em 2027. Ao longo de sua existência, a igreja passou por diversas reformas e adaptações, sendo uma das mais significativas a reconstrução em 1940, quando, após enchentes e ataques de cupins, o prédio foi erguido mais de um metro acima do nível da rua para protegê-lo de futuras inundações. Cada um desses detalhes não apenas conta a história da igreja, mas também reflete a resiliência e a importância de preservar tais estruturas contra o tempo e, agora, contra a ação criminosa.
Outro templo violado: a Igreja da Sagrada Família
Objetos de valor litúrgico subtraídos
Os ataques ao patrimônio religioso não se restringiram à Igreja Santo Antônio dos Pobres. Na semana anterior, outro furto de grande impacto atingiu a Igreja da Sagrada Família, localizada na Rua do Livramento, no bairro da Saúde, nas proximidades do Hospital dos Servidores. O caso foi prontamente registrado na 4ª Delegacia de Polícia, que também iniciou diligências para apurar os fatos.
O pároco da Igreja da Sagrada Família, José Augusto Pedroza, detalhou a extensão do prejuízo. Uma vasta gama de objetos litúrgicos e itens metálicos foi subtraída do templo. Entre os bens levados estão um cálice, a patena, âmbolas, o turíbulo e a naveta – todos instrumentos essenciais para a celebração das missas e ritos religiosos. Adicionalmente, castiçais, um sacrário em desuso, um crucifixo, um carrilhão e até mesmo uma menorá foram furtados. Para agravar a situação, os criminosos também levaram corrimãos de alumínio, que, embora não possuam o mesmo valor artístico ou histórico dos objetos litúrgicos, representam um custo de reposição e afetam a acessibilidade e segurança do local.
A sucessão desses casos tem gerado profunda preocupação entre religiosos, frequentadores das igrejas e defensores do patrimônio. O valor dos bens subtraídos transcende o monetário, atingindo o âmbito histórico, artístico e, principalmente, simbólico. Objetos litúrgicos, por exemplo, são frequentemente peças únicas, muitas vezes trabalhadas artesanalmente por gerações, e sua perda representa uma lacuna irrecuperável na coleção de arte sacra e na história da própria comunidade. A menorá, por sua vez, embora não seja tradicionalmente católica, pode ter um significado ecumênico ou representar uma doação especial, agregando ainda mais complexidade ao furto.
A Polícia Civil, por meio de suas delegacias correspondentes, informou que as diligências estão em andamento em ambos os casos, visando identificar e responsabilizar os autores dos furtos. No entanto, a recorrência e a ousadia dos crimes sublinham a necessidade de fortalecer as medidas de segurança e de promover uma vigilância mais efetiva sobre o valioso patrimônio histórico e cultural do Centro do Rio. A fragilidade demonstrada por esses episódios serve como um alerta para a importância de um esforço conjunto entre autoridades, comunidades religiosas e a sociedade civil na proteção desses tesouros nacionais.
Desafios da preservação e segurança do patrimônio
Os recentes furtos nas igrejas históricas do Centro do Rio, como a Santo Antônio dos Pobres e a da Sagrada Família, expõem uma realidade preocupante: a vulnerabilidade do vasto e inestimável patrimônio cultural da cidade. A recorrência desses ataques, com o objetivo de subtrair desde objetos litúrgicos de valor incalculável até componentes arquitetônicos metálicos, sublinha a urgência de uma reavaliação das estratégias de segurança e preservação. O que está em jogo não é apenas o valor material dos bens, mas a própria memória, a história e a identidade de uma região que é um marco para o Rio de Janeiro e para o Brasil.
A percepção de abandono, como mencionada pelo provedor da Irmandade de Santo Antônio dos Pobres, reflete um problema mais amplo de segurança pública e de zeladoria urbana que afeta o Centro. A deterioração de áreas históricas, a presença de moradores de rua em situações de vulnerabilidade social e a falta de policiamento ostensivo criam um ambiente propício para a criminalidade. A interrupção do sistema de vigilância por câmeras, em um dos casos, exemplifica como fatores externos e a fragilidade da infraestrutura podem ser explorados por criminosos.
Para além das investigações policiais em andamento, que buscam identificar e prender os responsáveis, é fundamental que haja um esforço multisetorial. Isso inclui o fortalecimento da segurança patrimonial, possivelmente com a instalação de sistemas de alarme e câmeras mais robustos e independentes de vulnerabilidades elétricas, além de um policiamento preventivo e ostensivo nas áreas adjacentes aos templos. A colaboração entre órgãos de segurança, instituições religiosas, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) e a Arquidiocese do Rio é crucial para desenvolver planos de segurança integrados e eficazes.
A conscientização da população sobre a importância da preservação do patrimônio é igualmente vital. Cidadãos atentos e engajados podem atuar como olhos adicionais na proteção desses locais. Os furtos não são apenas crimes contra a propriedade, mas ataques diretos à cultura, à história e à espiritualidade de uma comunidade. Proteger essas igrejas é salvaguardar um legado que pertence a todos, garantindo que as futuras gerações possam continuar a apreciar e aprender com esses monumentos de fé e arte. O desafio é complexo, mas a união de esforços pode reverter esse cenário e garantir a integridade dos tesouros que compõem o coração histórico do Rio de Janeiro.
Perguntas frequentes (FAQ)
Quais igrejas foram alvo dos furtos mais recentes no Centro do Rio?
As igrejas que foram recentemente alvo de furtos no Centro do Rio de Janeiro são a Igreja Santo Antônio dos Pobres, na Rua dos Inválidos, e a Igreja da Sagrada Família, na Rua do Livramento, bairro da Saúde.
Quais tipos de objetos foram furtados dessas igrejas?
Na Igreja Santo Antônio dos Pobres, foram furtadas as ferragens que compõem os apliques da porta principal. Na Igreja da Sagrada Família, foram subtraídos diversos objetos litúrgicos e itens metálicos, como cálice, patena, âmbolas, turíbulo, naveta, castiçais, um sacrário em desuso, crucifixo, carrilhão, uma menorá e corrimãos de alumínio.
Qual o impacto desses furtos para o patrimônio cultural do Rio de Janeiro?
Os furtos representam um impacto significativo, não apenas pela perda material, mas principalmente pelo dano ao patrimônio histórico, artístico e simbólico. Muitos dos objetos são únicos e carregam séculos de história, arte e fé, sendo insubstituíveis e afetando a identidade cultural da cidade e a comunidade religiosa.
O que está sendo feito para investigar os crimes e prevenir futuros furtos?
A Polícia Civil, por meio da 5ª DP (Mém de Sá) e da 4ª DP, está conduzindo investigações para identificar e responsabilizar os autores dos furtos. Além disso, a situação reacendeu o debate sobre a necessidade de reforçar a segurança nas igrejas históricas, com a possível instalação de sistemas de vigilância mais robustos e um maior policiamento na região.
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Fonte: https://temporealrj.com



