Imagine lavouras prosperando em harmonia com a floresta, como um plantio de milho abençoado pela sombra de uma castanheira-do-pará. Essa combinação de produção agrícola e preservação ambiental tem ganhado destaque entre especialistas e ativistas como uma estratégia crucial para a recuperação do planeta, diante dos impactos da ação humana no clima, manifestados em eventos extremos como tempestades e secas.
Essa união, um modelo de uso da terra justo e sustentável, é conhecida como “agrofloresta”. O sistema visa otimizar áreas degradadas, transformando técnicas de monocultura em florestas biodiversas, sendo considerado uma das principais apostas para mitigar os efeitos das mudanças climáticas.
A proposta é uma agricultura que dispensa agrotóxicos e produtos químicos, baseada na ecologia, no equilíbrio e na lógica da natureza. Plantas menores, como as alimentares, são combinadas com árvores maiores, de raízes profundas, que proporcionam sombra e água.
Essa combinação resulta na diminuição da emissão de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera, gás que agrava o efeito estufa e contribui para o aquecimento global. Mais árvores significam maior absorção de carbono e menos gás nocivo.
Em entrevista, Moisés Savian, engenheiro agrônomo e secretário do Ministério do Desenvolvimento Agrário, explicou que a agrofloresta atua na mitigação e adaptação aos efeitos das mudanças climáticas. Diminuir a emissão de carbono mitiga o problema, enquanto a combinação de lavouras com florestas, que oferecem sombra e raízes profundas, beneficia as plantações em períodos de crise hídrica.
Savian destacou ainda que a agrofloresta une a preocupação com o planeta à geração de renda e produção de alimentos, combatendo a fome. A ideia de florestas produtivas ganhou popularidade durante a COP 30, em Belém.
Em Botuporã, Bahia, um projeto de cooperação internacional incentiva moradores e jovens a entender a importância da união entre agricultura e ecologia. O município integra um consórcio com comunidades da Alsácia do Norte, França, desde 2021.
Hervé Tritschberger, prefeito da cidade francesa de Eschbach, idealizador do projeto, busca valorizar agricultores, produtores rurais e capacitar jovens para trocas de conhecimento sobre sustentabilidade. Essa cooperação levou Yago Fagundes a uma imersão em agroecologia na França e, posteriormente, à aplicação no Brasil.
Yago Fagundes relata que a experiência no Brasil promove o empoderamento rural, com a capacitação de agricultores na produção de queijo Tomme de Vache, utilizando uma receita sustentável milenar. A vivência na França, onde morou com agricultores com selo “BIO”, e participou da construção de cercas vivas e projetos de plantio em escolas, foi crucial para a biodiversidade.
Em contrapartida, duas voluntárias francesas passaram oito meses em Botuporã para aprender técnicas de agricultura orgânica. Segundo o prefeito francês, Brasil e França compartilham os objetivos de trabalhar para o desenvolvimento sustentável.
Como resultado da experiência, foi publicado um livro com a consolidação das principais trocas, disponibilizado gratuitamente e apresentado durante o Festival Nosso Futuro, em Salvador.
William Torres, jornalista socioambiental e divulgador científico, conta que aprendeu sobre agroecologia no quintal de sua avó e bisavó. Hoje, ele entende que a agroecologia vai além de alimentos livres de agrotóxicos, englobando aspectos subjetivos da vida e as raízes: o território, a tradição e a sabedoria ancestral.
Torres diz que a postura ambiental reflete valores como consciência ambiental responsável e coletiva, além da justiça socioambiental. Ele entende que toda ação individual que busca fugir da lógica do lucro é válida no combate à crise climática.
Moisés Savian, do Ministério de Desenvolvimento Agrário, acredita que a COP 30 foi uma oportunidade de mostrar o que o Brasil tem feito, com a apresentação da agenda de florestas produtivas.
Para ele, é essencial um sistema de produção de alimentos resiliente às intempéries, como secas e chuvas extremas. Ele defende o incentivo financeiro de países mais desenvolvidos e o crédito agrícola para capacitar pequenos agricultores a utilizarem a técnica de produção de alimentos sustentável.
Savian ressalta a importância de incluir o mercado consumidor como uma mola propulsora da economia sustentável. A Floresta em Pé, para ele, pode fazer parte da solução para a emergência climática.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br



