A corrida pelo governo do Rio de Janeiro em 2026 já movimenta os bastidores da política fluminense, com estratégias complexas sendo desenhadas. Uma das articulações mais notáveis parte de Flávio Bolsonaro, que propõe uma abordagem ambiciosa: repetir a bem-sucedida fórmula de 2018, porém “turbinada”, para enfrentar Eduardo Paes. O cerne da proposta envolve a ascensão de um candidato inicialmente menos conhecido, Douglas Ruas (PL), ao posto de governador-tampão quando o atual chefe do executivo, Cláudio Castro, se desincompatibilizar em abril. Essa manobra estratégica visa capitalizar a visibilidade e o poder da máquina estadual para impulsionar a candidatura de Ruas, replicando a dinâmica que levou Wilson Witzel ao poder há oito anos, mas agora com o benefício adicional de estar à frente do Palácio Guanabara. No entanto, essa visão confronta-se com os próprios planos de Cláudio Castro, gerando uma disputa interna sobre a sucessão interina.
A estratégia “2018 turbinado” e o papel de Douglas Ruas
A proposta de Flávio Bolsonaro para a eleição de 2026 no Rio de Janeiro é audaciosa e busca emular o sucesso eleitoral de 2018, mas com um diferencial crucial: a utilização da máquina governamental. A expressão “2018 turbinado” cunhada pelo senador faz referência à ascensão meteórica de Wilson Witzel, então um nome relativamente desconhecido na política fluminense, que conseguiu capitalizar a onda de renovação e o apoio da família Bolsonaro para vencer as eleições daquele ano. A estratégia agora é aprimorada, incorporando o controle do Palácio Guanabara para dar ainda mais tração a um candidato com perfil similar.
O nome central nessa articulação é o deputado licenciado e atual secretário estadual de Cidades, Douglas Ruas, filiado ao Partido Liberal (PL). Segundo a visão de Flávio Bolsonaro, Ruas seria o candidato ideal para replicar o fenômeno Witzel. O argumento é que, assim como Witzel em 2018, Ruas parte de um patamar de menor reconhecimento público em comparação com figuras estabelecidas como Eduardo Paes, o atual prefeito do Rio. Para superar essa desvantagem inicial e ganhar a projeção necessária, a família Bolsonaro defende que Ruas assuma o governo do estado de forma interina.
A ascensão através da máquina estadual
A ideia de Flávio Bolsonaro é que Douglas Ruas assuma o cargo de governador-tampão em abril, quando Cláudio Castro precisar se desincompatibilizar para concorrer ao Senado ou outro cargo. Ocupar a cadeira do Palácio Guanabara, mesmo que por alguns meses, concederia a Ruas uma série de vantagens estratégicas inestimáveis. Primeiramente, ele ganharia uma “vitrine” política sem precedentes. A mídia passaria a cobrir suas ações como governador, concedendo-lhe visibilidade e tempo de exposição que seriam impossíveis de alcançar como secretário ou deputado.
Além da vitrine, a função de governador oferece uma “agenda” robusta. Ruas estaria presente em inaugurações, eventos oficiais, anúncios de políticas públicas e reuniões com prefeitos e líderes comunitários por todo o estado. Essa exposição direta com a população e com as lideranças locais é um capital político que poucos candidatos conseguem acumular em tão pouco tempo. Mais do que isso, assumir o governo conferiria a Ruas o “carimbo de governador”, que denota legitimidade, capacidade de gestão e a autoridade inerente ao cargo. Ele deixaria de ser apenas um pré-candidato para se tornar o gestor máximo do estado, com poder de decisão e implementação.
Flávio Bolsonaro argumenta que, sem esse impulso vindo da máquina estadual, a campanha de Douglas Ruas começaria “torta”, em grande desvantagem contra um adversário político do calibre de Eduardo Paes, que possui forte reconhecimento e uma base eleitoral consolidada na capital e em parte da Baixada Fluminense. A ocupação do cargo seria, portanto, o elemento “turbinado” que faria a diferença em 2026, transformando um nome promissor em um candidato competitivo desde o início da corrida eleitoral.
O contraponto de Cláudio Castro e a proposta de Nicola Miccione
Apesar da articulação de Flávio Bolsonaro, o governador Cláudio Castro, peça fundamental para a concretização de qualquer plano de sucessão, tem uma visão diferente e uma proposta alternativa para o período de interinidade. Para Castro, a sucessão temporária não deve focar apenas na projeção eleitoral do futuro candidato, mas também na continuidade da gestão e na consolidação de seu próprio legado à frente do governo do Rio de Janeiro.
O entorno de Cláudio Castro indica que o governador prefere que o secretário estadual de Casa Civil, Nicola Miccione, seja o governador-tampão. A escolha de Miccione não seria aleatória, mas baseada em sua proximidade e confiança com o governador, além de seu papel estratégico na articulação política e administrativa do governo atual. A principal distinção em relação à proposta de Flávio Bolsonaro é que Miccione não seria candidato à reeleição ao cargo de governador. Sua missão seria diferente.
Legado e continuidade: a visão de Castro
A justificativa de Cláudio Castro para a nomeação de Nicola Miccione como governador-tampão é pautada em dois pilares: política e legado. Do ponto de vista político, Castro busca garantir que a transição seja suave e que o comando do estado permaneça em mãos de alguém de sua confiança durante o período eleitoral. Isso permitiria que o atual governador mantivesse uma influência considerável sobre a administração e as decisões do executivo, mesmo após sua desincompatibilização.
Em relação ao legado, Castro considera que Miccione, como chefe da Casa Civil, seria a pessoa mais indicada para “concluir o governo” e “fechar um ciclo”. Isso significa assegurar a finalização de projetos em andamento, a manutenção da governabilidade e a proteção da imagem da sua administração até o final do mandato. A presença de Miccione, um gestor experimentado e leal, garantiria que as políticas e prioridades de Castro fossem mantidas, e que a máquina pública operasse de forma alinhada aos seus interesses. A caneta do governo, nas mãos de Miccione, serviria para manter a estabilidade administrativa e política, apoiando a candidatura de Douglas Ruas sem, contudo, conferir a ele o controle total do executivo no período mais sensível que antecede as eleições.
A disputa de comando e as implicações eleitorais
A divergência entre Flávio Bolsonaro e Cláudio Castro sobre quem deve ocupar a posição de governador-tampão revela uma complexa disputa de comando e poder dentro do grupo político. A questão vai muito além de um simples nome; ela toca na estratégia eleitoral, no controle da máquina pública e na projeção de diferentes forças políticas para a eleição de 2026.
Flávio Bolsonaro, ao defender Douglas Ruas como governador-tampão com plenos poderes e pretensões eleitorais, busca criar um candidato forte e consolidado desde o início, aproveitando ao máximo o potencial da estrutura do governo. Essa é uma aposta na construção de um nome a partir da força da cadeira do Palácio Guanabara. Por outro lado, Cláudio Castro, ao propor Nicola Miccione como um gestor interino sem ambições eleitorais, visa manter um maior controle sobre a administração durante a transição, protegendo seu legado e potencialmente exercendo uma influência mais direta na campanha de quem quer que venha a apoiar formalmente. Ele busca uma transição controlada, onde a gestão do estado continue refletindo suas diretrizes até o último momento.
Cenários e desdobramentos para 2026
A decisão sobre quem sentará na cadeira do Palácio Guanabara como governador-tampão terá profundas implicações para o cenário eleitoral de 2026 no Rio de Janeiro. Se a proposta de Flávio Bolsonaro prevalecer, Douglas Ruas ganharia um impulso significativo, transformando-se de um candidato pouco conhecido em um nome com a chancela do executivo estadual. Isso poderia acelerar sua projeção e torná-lo um adversário mais robusto para figuras como Eduardo Paes.
Contudo, se a visão de Cláudio Castro for adotada, Miccione assumiria, o que garantiria a continuidade administrativa e a gestão do legado de Castro, mas deixaria Ruas sem o “carimbo de governador” que a estratégia de Bolsonaro almeja. Ruas ainda seria o candidato apoiado, mas a forma de sua construção política seria diferente, talvez exigindo mais esforço e recursos para ganhar o mesmo nível de reconhecimento. Essa disputa interna pode gerar tensões dentro do próprio grupo aliado e potencialmente enfraquecer a unidade em torno de um único nome. A forma como essa divergência for resolvida definirá não apenas o futuro político de Douglas Ruas, mas também a dinâmica de poder entre as principais lideranças de direita e centro-direita no estado do Rio de Janeiro para os próximos anos. A janela de abril, data limite para a desincompatibilização, é crucial e promete intensificar as negociações nos bastidores.
Perguntas frequentes
O que é um governador-tampão?
Um governador-tampão é um substituto temporário que assume o cargo quando o governador titular precisa se afastar, geralmente para disputar outra eleição. Sua função é preencher a lacuna até que um novo governador seja eleito e empossado.
Por que Flávio Bolsonaro defende Douglas Ruas como governador-tampão?
Flávio Bolsonaro defende Douglas Ruas para que ele utilize a máquina governamental do estado, ganhando visibilidade, agenda oficial e a legitimidade do cargo de governador antes das eleições de 2026. A ideia é replicar a estratégia de 2018 com Witzel, mas de forma “turbinada”, ou seja, com mais recursos e projeção.
Qual é a proposta alternativa de Cláudio Castro?
Cláudio Castro propõe que seu secretário de Casa Civil, Nicola Miccione, assuma como governador-tampão. Diferente de Ruas, Miccione não seria candidato e teria como missão principal garantir a continuidade da gestão de Castro, proteger seu legado e “fechar um ciclo” administrativo.
Quais as principais diferenças entre as duas propostas para o governador-tampão?
A principal diferença reside no objetivo. A proposta de Flávio Bolsonaro visa impulsionar diretamente a candidatura de Douglas Ruas, conferindo-lhe a cadeira de governador para que ele construa sua campanha a partir do executivo. Já a proposta de Cláudio Castro foca na continuidade administrativa e na preservação do legado do governo atual, com Miccione atuando como um gestor de transição que apoia a candidatura de Ruas, mas sem ser o próprio candidato.
Qual o papel de Eduardo Paes nesse cenário?
Eduardo Paes é o principal adversário político a ser enfrentado. Ele é uma figura consolidada na política fluminense e representa um desafio significativo, o que motiva a busca por uma estratégia robusta e diferenciada por parte do grupo de Flávio Bolsonaro.
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Fonte: https://diariodorio.com



