A Praia Vermelha, na Urca, zona sul do Rio de Janeiro, foi palco de um significativo ritual na véspera do réveillon, unindo fé, gratidão e pedidos de um futuro melhor. Devotos de Umbanda e Candomblé reuniram-se para reverenciar Iemanjá, a orixá feminina que nas religiões afro-brasileiras simboliza as águas, seja nos mares ou nos rios, e é um pilar de esperança e renovação para muitos. O evento, marcado pela entrega de oferendas e orações à Rainha do Mar, transformou a orla carioca em um santuário de devoção. A celebração não apenas manteve viva uma antiga tradição, mas também abriu espaço para reflexões importantes sobre a inclusão e a diversidade religiosa na cidade, especialmente em um período tão emblemático quanto a virada do ano.
A celebração de Iemanjá na Praia Vermelha
Fé e gratidão: os devotos e suas oferendas
Ainda no crepúsculo da noite de 30 de dezembro, véspera do réveillon, fiéis começaram a chegar à Praia Vermelha, ansiosos por participar do ritual dedicado a Iemanjá. Entre os primeiros estava Ana Beatriz de Oliveira, uma jovem arquiteta de 23 anos, que carregava rosas amarelas. Embora a entidade seja tradicionalmente associada às cores azul e branco, Ana Beatriz trouxe as flores em um gesto de profunda gratidão. “Eu vim agradecer pelo ano. Vim agradecer por eu ter conseguido me formar , porque foi muito difícil”, revelou, mencionando ainda que conseguiu emprego no mesmo escritório onde estagiou antes de concluir seus estudos, um testemunho de superação e fé.
Outro participante notável era Washington Bueno, cabeleireiro e maquiador de 58 anos. Ele conseguiu adquirir palmas brancas viçosas, as tradicionais oferendas para Iemanjá, e buscava bênçãos para áreas essenciais de sua vida: trabalho, saúde e amor. No entanto, Washington também carregava um pedido mais abrangente e urgente: o fim da violência de gênero. “Nós brasileiros estamos um pouco em conflito. Há questões de respeito ao próximo, né? Tivemos este ano de 2025 com tantas agressões às mulheres”, lamentou. Seu apelo por “um ano mais de conscientização com o bem-estar e cuidado um do outro” ressoou como um eco das preocupações sociais que permeiam a celebração da esperança.
As oferendas, que incluíam não apenas flores como palmas brancas e rosas amarelas, mas também cartas, perfumes e garrafas de champanhe, eram depositadas em um barco de cerca de dois metros de comprimento. Ornamentado nas cores azul e branco, e com uma imagem de Iemanjá, o barco era o ponto focal da gira organizada na areia pela Associação Umbanda e Cultos Afros (Auca). Batizado de “Presente de Iemanjá”, este foi o quinto culto realizado na última semana do ano em devoção à orixá, recebendo apoio da Coordenadoria da Diversidade Religiosa da Prefeitura do Rio de Janeiro, evidenciando o reconhecimento público da importância cultural desses ritos.
Diálogo sobre diversidade e espaço religioso
O questionamento do palco gospel e o sincretismo carioca
Apesar do suporte logístico e de segurança oferecido pela prefeitura aos eventos religiosos de matriz africana, vozes dentro da Umbanda expressaram preocupação com o que consideram um tratamento diferenciado em relação a outras religiões durante as celebrações de fim de ano. O babalawô Ivanir dos Santos, pesquisador e doutor em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), levantou questões sobre o patrocínio da prefeitura a um palco dedicado integralmente à música evangélica em Copacabana na noite do réveillon.
“Por que esse privilégio?”, questionou Ivanir dos Santos, destacando que a discussão não é ser contra o palco gospel, mas sim a ausência de um espaço plural para a música religiosa. Ele argumentou que católicos, muçulmanos, budistas, bem como os povos do Candomblé e da Umbanda, produzem música rica e diversificada para seus ritos e louvores. A ausência de um palco que representasse a música dos terreiros, segundo ele, configura um “apagamento” de uma tradição que, na década de 1950, iniciou o costume de festejar a passagem do ano vestido de branco na Praia de Copacabana, realizando cultos e oferendas a Iemanjá. O pesquisador expressou o temor de que o apagamento de tradições culturais e religiosas possa levar à imposição de uma cultura espiritual “hegemônica” e menos tolerante com outras formas de credo.
Em resposta às críticas, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, salientou que “há uma parcela muito significativa da nossa cidade que gosta de música gospel e que quer — e pode — ter seu espaço”. O prefeito defendeu a iniciativa como uma forma de inclusão, afirmando que “esse público não vinha para Copacabana e agora vai vir, vai conviver com pessoas fazendo oferendas a Iemanjá. Isso é o sincretismo religioso do Brasil e da nossa cidade.” Suas palavras buscaram conciliar as diferentes manifestações de fé, reforçando a ideia de que o Rio de Janeiro é um caldeirão cultural onde diversas crenças podem coexistir pacificamente, ainda que o debate sobre a igualdade de espaço e visibilidade continue a ser uma pauta importante.
A persistência da fé e o desafio da inclusão
As celebrações de Iemanjá na Praia Vermelha, na véspera do réveillon, são um poderoso lembrete da rica tapeçaria cultural e religiosa que define o Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo em que os devotos expressam sua fé e esperança para o novo ano, as discussões em torno da representatividade religiosa nos espaços públicos da cidade ressaltam a necessidade contínua de diálogo e compreensão mútua. A busca por um Réveillon que verdadeiramente celebre a diversidade de crenças e tradições do povo carioca é um desafio constante, mas também uma oportunidade para fortalecer os laços comunitários e promover uma convivência mais harmoniosa e respeitosa entre todos. A fé em Iemanjá e o anseio por um futuro mais justo e pacífico impulsionam a cidade a refletir sobre sua identidade e seus valores mais profundos.
Perguntas frequentes sobre as celebrações de Iemanjá no Réveillon
Quem é Iemanjá e qual sua importância nas celebrações de fim de ano?
Iemanjá é uma orixá feminina reverenciada nas religiões afro-brasileiras, como Umbanda e Candomblé, representando as águas, sejam mares ou rios. Ela é considerada a Rainha do Mar, mãe de todos os orixás e padroeira dos pescadores. Nas celebrações de fim de ano, Iemanjá é cultuada como símbolo de renovação, purificação e fertilidade, a quem se pedem bênçãos, proteção e prosperidade para o ano que se inicia.
Quais são as oferendas mais comuns para Iemanjá?
As oferendas a Iemanjá são variadas e geralmente incluem elementos associados à beleza e à natureza marinha. Flores, especialmente rosas brancas, são muito comuns, mas também são levadas palmas brancas, perfumes, joias, espelhos, sabonetes, velas azuis e brancas, e até mesmo champanhe. Esses itens são depositados em barcos pequenos ou diretamente no mar, como um gesto de devoção e gratidão.
Qual a relação entre o Réveillon e o sincretismo religioso no Rio de Janeiro?
O Réveillon no Rio de Janeiro é um dos maiores exemplos de sincretismo religioso do Brasil. A tradição de vestir branco na virada do ano e de levar oferendas ao mar para Iemanjá tem suas raízes nas religiões de matriz africana, mas foi amplamente incorporada pela cultura popular. Hoje, pessoas de diferentes crenças participam desses rituais, que se misturam a elementos de celebrações católicas e festas seculares, criando uma manifestação única de fé, esperança e diversidade cultural.
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