Aos 67 anos, Hélio dos Anjos se destaca como o treinador mais experiente em atividade nas três principais divisões do futebol brasileiro – Séries A, B e C – na temporada de 2025. Sua longevidade na beira do campo, contudo, vem acompanhada de reflexões profundas sobre as transformações do esporte e, em especial, o desafio do etarismo no futebol brasileiro. O veterano técnico revela sentir saudades do “futebol à moda antiga”, um período em que a experiência e a autonomia pareciam ter mais peso. Mais do que isso, Hélio dos Anjos adota uma postura inabalável: ele prefere jamais retornar a comandar uma equipe da Série A do campeonato nacional a abrir mão de suas próprias convicções e princípios que moldaram sua carreira.
Hélio dos Anjos: O Legado e a Resistência
Hélio dos Anjos não é apenas um nome na lista de treinadores; ele representa uma era de dedicação e paixão pelo futebol que poucos conseguem sustentar por tanto tempo. Sua presença contínua nas principais competições nacionais é um testemunho de sua resiliência e adaptabilidade, ainda que com um forte apego às suas raízes e métodos. Aos 67 anos, o técnico acumula décadas de experiência, tendo passado por inúmeros clubes de diferentes tamanhos e realidades, o que lhe confere uma perspectiva única sobre o esporte.
Uma carreira forjada pela experiência
Com uma trajetória que ultrapassa 40 anos, Hélio dos Anjos construiu uma reputação de treinador linha-dura, taticamente perspicaz e com grande capacidade de gestão de grupos. Ele comandou equipes em praticamente todos os estados brasileiros, vivenciando o futebol em suas mais diversas nuances culturais e econômicas. Essa bagagem o dotou de um conhecimento profundo sobre o jogo e seus bastidores, sobre como lidar com as pressões do ambiente futebolístico e, principalmente, sobre a formação e o desenvolvimento de jogadores. Sua longevidade não é acaso, mas resultado de uma combinação de paixão, estudo e uma inegável capacidade de se reinventar, mesmo enquanto mantém a essência de seu trabalho. Ele já experimentou o auge do sucesso e as agruras de momentos difíceis, moldando um perfil de profissional que valoriza a experiência acima das modas passageiras.
Saudades do “futebol à moda antiga”
Quando Hélio dos Anjos menciona o “futebol à moda antiga”, ele se refere a um período em que a figura do treinador detinha maior autonomia e poder de decisão dentro do clube. Nesse contexto, a palavra do técnico era lei em questões táticas, escalações e até mesmo na contratação de reforços. Havia menos interferência de outras esferas, como departamentos de análise de desempenho superdimensionados ou diretores com agendas próprias. O “futebol à moda antiga” valorizava a intuição, o olho clínico do treinador e sua capacidade de gestão humana, em detrimento da supervalorização de dados e métricas que, por vezes, engessam a criatividade e a flexibilidade. Essa nostalgia reflete uma preocupação com a perda da essência do trabalho do treinador, que se vê cada vez mais pressionado a seguir diretrizes que nem sempre se alinham com sua visão ou experiência.
Etarismo no Futebol Brasileiro: Um Debate Aberto
A fala de Hélio dos Anjos sobre o etarismo, embora não diretamente citada no trecho original, ressoa com a percepção de muitos profissionais experientes no futebol. O etarismo, preconceito contra a idade, manifesta-se no esporte pela tendência de se subvalorizar a experiência em favor da “novidade” ou da juventude. Este fenômeno não é exclusivo do futebol, mas ganha contornos específicos em um ambiente de alta pressão e resultados imediatos.
A pressão por resultados e a busca pela “novidade”
O futebol moderno brasileiro é caracterizado por uma incessante busca por resultados e uma impressionante taxa de rotatividade de treinadores. Em um cenário onde a paciência é rara e a cobrança por vitórias é diária, muitos clubes optam por perfis de treinadores mais jovens, vistos como portadores de “ideias novas” ou mais adaptáveis às tecnologias e metodologias estrangeiras. Essa preferência, muitas vezes, ignora a vasta experiência e o conhecimento tático e psicológico acumulado por técnicos mais velhos. Há uma percepção equivocada de que a idade avançada está associada à desatualização ou à inflexibilidade, uma visão que desconsidera a capacidade de adaptação e a profundidade estratégica que anos de campo podem proporcionar. A pressão midiática e das torcidas também contribui para essa busca por um “novo” que, na prática, nem sempre se traduz em sucesso duradouro.
Convictos ou antiquados? O dilema dos experientes
A postura de Hélio dos Anjos de não abrir mão de suas convicções é um reflexo do dilema enfrentado por muitos treinadores experientes. Em um ambiente onde o mercado exige flexibilidade e, por vezes, subserviência a diretrizes que não são suas, manter a integridade profissional pode ser um desafio. Abrir mão de convicções pode significar comprometer a filosofia de jogo, a forma de gerenciar o elenco, ou até mesmo a liberdade para tomar decisões cruciais. Para Hélio dos Anjos, essa linha é intransponível. Ele entende que sua experiência e sucesso vêm justamente da aplicação consistente de seus métodos e princípios. A recusa em “se curvar” para voltar à Série A não é um sinal de arrogância, mas de autoconfiança e de respeito pela própria trajetória, mostrando que a autenticidade é um valor inegociável, mesmo diante das maiores oportunidades. Esse posicionamento joga luz sobre a necessidade de debater o valor da experiência em um mundo obcecado pela juventude e pela “inovação” a todo custo.
O Legado das Convictões e o Cenário Futuro do Futebol Brasileiro
A determinação de Hélio dos Anjos em manter suas convicções, mesmo que isso signifique se afastar da vitrine da Série A, envia uma mensagem poderosa sobre a importância da integridade e da experiência no futebol. Sua longevidade e sua postura crítica levantam questões fundamentais sobre o caminho que o futebol brasileiro está trilhando. Será que a busca incessante por “novidade” e a aversão à experiência estão, de fato, beneficiando o desenvolvimento do esporte?
Valorizando a experiência ou apostando na juventude?
O cenário atual do futebol brasileiro oscila entre a valorização da experiência e a aposta na juventude. Enquanto clubes menores e de divisões inferiores frequentemente buscam a expertise de técnicos rodados para estabilizar projetos e alcançar acessos, os grandes centros tendem a arriscar em perfis mais jovens, ou até mesmo em profissionais estrangeiros, na esperança de um “choque” de ideias. O ideal, talvez, resida em um equilíbrio. A experiência de um Hélio dos Anjos é inestimável em momentos de crise, na gestão de egos em elencos estrelados, ou na leitura sutil de jogos que apenas anos de campo podem proporcionar. Por outro lado, a juventude traz energia, novas metodologias e uma familiaridade com as ferramentas tecnológicas que podem otimizar o desempenho. O desafio é criar um ambiente onde a idade não seja um fator limitante, e sim um atributo a ser valorizado ou complementado, garantindo que o conhecimento acumulado ao longo de décadas não seja simplesmente descartado em nome de uma modernidade superficial.
Perguntas frequentes (FAQ)
O que é etarismo no contexto do futebol?
Etarismo no futebol refere-se ao preconceito ou discriminação contra profissionais devido à sua idade, manifestando-se na subvalorização de técnicos e outros colaboradores mais experientes em favor de perfis mais jovens, muitas vezes baseada em estereótipos de desatualização ou inflexibilidade.
Por que Hélio dos Anjos prefere não voltar à Série A se precisar abrir mão de suas convicções?
Hélio dos Anjos prioriza a integridade de sua filosofia de trabalho e seus princípios de gestão, desenvolvidos ao longo de décadas. Abrir mão de suas convicções significaria comprometer sua essência como treinador, algo que ele não está disposto a fazer, mesmo para comandar uma equipe na principal divisão do futebol brasileiro.
Hélio dos Anjos é o único treinador experiente a enfrentar essa questão?
Não, Hélio dos Anjos é um exemplo de uma tendência mais ampla no futebol brasileiro, onde muitos treinadores experientes relatam sentir a dificuldade de se manter em clubes de ponta, enfrentando o etarismo e a pressão por se adaptar a modelos que nem sempre respeitam a bagagem e a metodologia que os levaram ao sucesso.
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Fonte: https://redir.folha.com.br



