No alvorecer dos anos 2000, em um encontro que se tornaria lendário, Marcelo Lacerda, figura proeminente da internet brasileira, se viu diante de uma proposta do então emergente Google. A oferta: uma participação de 5% na empresa. A resposta de Lacerda foi um sonoro “não”. Na época, o modelo de negócios da startup parecia incerto e a equipe excessivamente jovem.
Com bom humor, Lacerda relembra a reunião, citando a proposta de Sergey Brin de limitar a compra de ações no IPO a US$ 80 por investidor e a ambiciosa ideia de fotografar todas as ruas do mundo. A visão audaciosa de Brin, na época, soou improvável.
Essa decisão, hoje parte de um anedotário rico em experiências, moldou a trajetória de Lacerda, pioneiro da internet e tecnologia no Brasil. Ele é cofundador da Nutek, idealizador do Terra, e atualmente Chairman da Magnopus, empresa por trás de projetos globais, incluindo “O Rei Leão” (2019) e experiências imersivas para grandes corporações.
A trajetória de Lacerda começou antes mesmo da existência da web. Em 1987, fundou a Nutek, um sistema de correio eletrônico. Nos anos 90, participou da criação dos primeiros manuais da internet e testemunhou a privatização das telecomunicações. O lançamento do Terra Networks representou um salto significativo, impulsionado por uma estratégia focada em parcerias com grupos de mídia.
Em 1999, a Telefónica adquiriu o controle do Terra, que logo em seguida abriu capital na Nasdaq. O sucesso foi imediato, com as ações valorizando-se exponencialmente.
Entretanto, nem todas as decisões foram bem-sucedidas. A aquisição do Lycos por US$ 3 bilhões e a recusa ao Google se tornaram momentos marcantes. Lacerda relembra a queda do CEO do Terra devido à aquisição do Lycos, uma decisão que ele próprio havia defendido. A partir daí, a situação se deteriorou, com a perda de talentos e a desvalorização do Lycos.
Atualmente, Lacerda lidera a Magnopus, uma empresa de tecnologia com sede em Los Angeles, especializada em computação gráfica e realidade imersiva, atendendo clientes como Disney, Google, Meta, Amazon e NASA. A empresa, de capital majoritariamente brasileiro, surgiu de um encontro fortuito.
Em um jantar, Lacerda conheceu um vencedor do Oscar, que se tornou seu sócio. Juntos, eles criaram tecnologias imersivas utilizadas em Hollywood e por grandes corporações. “O Rei Leão de 2019 foi filmado inteiro dentro do software que criamos”, explica Lacerda.
No que diz respeito à inteligência artificial, Lacerda expressa uma visão clara: a IA representa uma ampliação da cognição humana, comparável à invenção da linguagem há 200 mil anos. Ele enfatiza a importância de evitar uma disparidade intelectual, onde apenas um pequeno grupo domina o conhecimento e a maioria se torna cada vez menos informada.
Para o futuro, Lacerda aposta em educação, criatividade e formação em ciência da computação. Ele está envolvido na criação do ITEC, um instituto de computação no Rio Grande do Sul, com um investimento filantrópico de R$ 400 milhões. O objetivo é formar a próxima geração de profissionais criativos e qualificados.
Fonte: www.infomoney.com.br



