A neuromielite óptica (NMO) é uma doença neurodegenerativa rara e grave, caracterizada por ataques inflamatórios que afetam principalmente o nervo óptico e a medula espinhal, podendo comprometer a visão e a mobilidade. Antes associada à esclerose múltipla, hoje a neuromielite óptica é reconhecida como uma condição autoimune distinta, na qual o sistema de defesa do corpo ataca por engano suas próprias estruturas neurológicas. Essa complexidade intrínseca, somada ao desconhecimento generalizado, resulta em diagnósticos tardios e tratamentos inadequados no Brasil, impactando severamente a qualidade de vida dos pacientes. A falta de acesso a terapias específicas e o suporte multidisciplinar no sistema público de saúde são barreiras adicionais que aprofundam os desafios enfrentados por milhares de brasileiros.
Compreendendo a neuromielite óptica
O que é e como se manifesta
A neuromielite óptica, também conhecida como Doença de Devic ou Distúrbios do Espectro da Neuromielite Óptica (NMOSD), é uma condição autoimune onde o sistema imunológico ataca por engano células saudáveis do sistema nervoso central, principalmente nos nervos ópticos e na medula espinhal. As inflamações resultantes podem levar a surtos ou crises recorrentes ao longo da vida, que causam lesões neurológicas. Os sintomas podem variar drasticamente, desde a perda de visão em um ou ambos os olhos até fraqueza muscular, paralisia, dores neuropáticas e problemas de equilíbrio e coordenação. Em casos graves, pode resultar na perda completa da mobilidade.
A doença não tem uma causa conhecida e pode se manifestar em qualquer idade, embora seja mais prevalente em mulheres e na população afro-brasileira, com a média de idade para as primeiras manifestações situando-se entre os 30 e 40 anos. A imprevisibilidade dos surtos e a severidade das sequelas tornam a NMO uma doença devastadora, exigindo atenção médica e social contínua.
Desafios no diagnóstico e dados epidemiológicos
O diagnóstico da neuromielite óptica é notoriamente complexo. Por muitos anos, a NMO foi confundida com a esclerose múltipla devido a sintomas iniciais semelhantes, o que frequentemente levava a diagnósticos errôneos e tratamentos inadequados que poderiam, inclusive, agravar a condição. A presidente da NMO Brasil, Daniele Americano, diagnosticada em 2012 após uma série de equívocos, enfatiza que o desconhecimento sobre a doença é um fator crítico para o atraso no diagnóstico preciso e, consequentemente, no início do tratamento.
O correto diagnóstico deve ser feito por neurologistas, muitas vezes em conjunto com neuro-oftalmologistas, dada a natureza neurológica da doença. No entanto, a raridade da condição e a falta de especialistas em diversas regiões do país dificultam esse processo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica uma doença como rara quando afeta até 65 pessoas em cada 100 mil indivíduos. No Brasil, a NMO Brasil estima que existam entre 3 mil e 4 mil pessoas vivendo com a doença, um número que, embora pequeno em termos proporcionais, representa milhares de vidas impactadas pela falta de informação e acesso.
A luta por tratamento e políticas públicas
Barreiras no sistema de saúde e medicamentos
Um dos maiores obstáculos para os pacientes com neuromielite óptica no Brasil é a escassez de tratamento adequado e disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). A maioria dos medicamentos comprovadamente eficazes para a NMO, como o satralizumabe (Enspryng), o inebilizumabe (Uplizna) e o ravulizumabe (Ultomiris), não está incorporada ao rol de terapias oferecidas pelo SUS. Isso força cerca de 90% dos pacientes a buscar amparo judicial para ter acesso aos tratamentos necessários, em um processo longo e desgastante.
O Ministério da Saúde informou que o inebilizumabe e o satralizumabe foram avaliados pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) em 2024 e 2025, respectivamente, mas tiveram parecer negativo para incorporação, principalmente devido a critérios de custo-efetividade. Quanto ao ravulizumabe, o governo federal negou ter recebido qualquer pedido de avaliação para o tratamento da NMO. Essa realidade contrasta com a necessidade urgente dos pacientes, que dependem desses fármacos para controlar a progressão da doença e minimizar sequelas.
A importância do cuidado multidisciplinar
Além dos medicamentos, o tratamento multidisciplinar é vital para a melhoria da qualidade de vida dos pacientes com neuromielite óptica, mas muitas vezes não é considerado uma prioridade no SUS. A presidente da NMO Brasil destaca a importância de profissionais como psicólogos, fisioterapeutas e assistentes sociais. A fisioterapia, por exemplo, é crucial para manter a funcionalidade e prevenir o atrofiamento muscular em pacientes que utilizam cadeira de rodas ou têm mobilidade reduzida. O apoio psicológico é fundamental para lidar com o impacto emocional de um diagnóstico raro e incapacitante, que pode levar à perda de autonomia e à necessidade de parar de trabalhar, especialmente em idade produtiva. A assistência social, por sua vez, pode auxiliar na navegação por direitos e benefícios previdenciários.
A integração desses profissionais no cuidado contínuo poderia proporcionar uma qualidade de vida significativamente melhor, diminuindo o sofrimento e auxiliando na adaptação às limitações impostas pela doença. Atualmente, o Ministério da Saúde afirma que o SUS atua no controle dos sintomas e na reabilitação, e que está em processo de definição do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para a NMO, buscando ampliar a atenção às doenças raras com 51 serviços especializados na Rede de Atenção às Doenças Raras, mais que o dobro de 2022.
O papel da sociedade civil e campanhas de conscientização
Diante dos desafios, a mobilização da sociedade civil tem sido fundamental. A NMO Brasil, fundada por Daniele Americano para preencher a lacuna de informações e apoio, tem sido uma voz ativa na luta por políticas públicas. A entidade, que começou em 2014 e foi formalizada em 2022, tem trabalhado para informar, educar e conscientizar a sociedade e o cenário político sobre a doença.
Fruto dessa atuação, o Brasil se tornou o primeiro país a instituir um Dia Nacional de Conscientização sobre a NMO, em 27 de março de 2023. A data visa acelerar o diagnóstico e reduzir as sequelas, incentivando as pessoas a buscarem ajuda médica ao reconhecerem sintomas. Exposições como a realizada na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), com audiodescrição e relatos de pacientes, também buscam dar visibilidade às “sequelas invisíveis” da doença e à luta por acesso a tratamento. Essas iniciativas são cruciais para que o tema ganhe relevância e leve à adoção de políticas públicas que garantam o direito constitucional à vida e à saúde para todos os pacientes de neuromielite óptica.
Perspectivas e o futuro do cuidado para a neuromielite óptica
A jornada dos pacientes com neuromielite óptica no Brasil é marcada por desafios significativos, desde o diagnóstico tardio até a ausência de tratamentos eficazes e acessíveis no SUS, e a carência de um suporte multidisciplinar integral. Contudo, o engajamento de associações como a NMO Brasil, a instituição de um Dia Nacional de Conscientização e os esforços para a criação de Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas representam avanços cruciais. É imperativo que a sociedade, os profissionais de saúde e os formuladores de políticas públicas unam esforços para superar o desconhecimento, agilizar diagnósticos, incorporar medicamentos vitais e garantir um cuidado completo e digno para todos que vivem com esta condição complexa.
FAQ
O que é neuromielite óptica (NMO)?
A neuromielite óptica é uma doença neurodegenerativa autoimune rara e grave, que provoca inflamação e danos principalmente nos nervos ópticos e na medula espinhal, podendo causar perda de visão, fraqueza, paralisia e outros sintomas neurológicos.
Por que o diagnóstico da NMO é tão complexo no Brasil?
O diagnóstico é complexo devido à raridade da doença, à semelhança dos sintomas iniciais com outras condições (como a esclerose múltipla) e ao desconhecimento geral sobre a NMO entre a população e alguns profissionais de saúde, resultando em atrasos e diagnósticos errôneos.
Quais são os principais desafios de tratamento para pacientes com NMO no SUS?
Os principais desafios incluem a falta de incorporação de medicamentos específicos e eficazes no SUS (como satralizumabe, inebilizumabe e ravulizumabe), a necessidade de judicialização para acesso a tratamentos e a carência de um cuidado multidisciplinar integrado, que inclua fisioterapia, psicologia e assistência social.
Existe um dia nacional de conscientização sobre a neuromielite óptica?
Sim, o Brasil instituiu o Dia Nacional de Conscientização sobre a Neuromielite Óptica em 27 de março, sendo o primeiro país no mundo a ter uma data dedicada à conscientização sobre a doença.
Aprofunde-se no conhecimento sobre a neuromielite óptica e contribua para a conscientização. Visite o site da NMO Brasil e informe-se sobre como apoiar as ações da entidade.



