Com a proximidade do ciclo eleitoral de 2026, que culminará em eleições gerais, a pauta da cultura e do patrimônio emergem como temas cruciais, mas frequentemente subestimados no debate público. Historicamente, essas áreas correm o risco de serem relegadas a meras menções protocolares ou promessas vagas, falhando em se converterem em programas de Estado sólidos e coerentes. Mais do que o oportunismo político, a carência de uma mobilização orgânica e coesa por parte do próprio setor cultural antes do período eleitoral tem sido um obstáculo significativo. A falta de articulação para definir prioridades, pactuar pleitos e cobrar compromissos objetivos deixa o campo cultural disperso e, por vezes, desinformado sobre seus próprios instrumentos. Este cenário agrava-se diante de desafios crônicos, como a escassez de recursos financeiros e humanos, resultando em um panorama desigual onde ilhas de prosperidade cultural contrastam com vastas regiões carentes de ações e investimentos duradouros.
A urgência do plano de carreira no Ministério da Cultura
Um dos pilares fundamentais para a estabilidade e eficiência do setor cultural reside na implementação de um plano de carreira robusto para os servidores da área. Longe de ser um mero capricho corporativo, tal plano constitui o esqueleto administrativo indispensável para o funcionamento adequado de qualquer estrutura estatal dedicada à cultura. Ele é o mecanismo que organiza o ingresso de profissionais qualificados, define remunerações justas, estabelece critérios de progressão e garante a formação continuada, além de delinear atribuições claras. Sem essa estrutura, a gestão da cultura no país tende a ser volátil e ineficaz, dependente de iniciativas isoladas e da resiliência de um corpo técnico frequentemente sobrecarregado e desvalorizado.
Sustentação técnica e valorização profissional
Sem um plano de carreira bem definido, a cultura fica refém do improviso. A ausência de estabilidade técnica resulta na incapacidade de reter quadros qualificados, na perda da memória institucional e na dependência de iniciativas isoladas de indivíduos abnegados que, por vezes, “seguram a máquina” em condições precárias. É ilusório pensar que a cultura se realiza apenas por meio de editais ou financiamentos pontuais. Ela se concretiza, primordialmente, com o trabalho de pessoas competentes, bem formadas, valorizadas e em número suficiente para fazer o Estado funcionar de forma eficiente. O próximo ciclo de mandatos, entre 2027 e 2030, não apresentará avanços estruturais significativos se continuar a tratar o corpo técnico como um detalhe secundário, ignorando a necessidade de uma base sólida de profissionais dedicados e reconhecidos. A carência de recursos humanos qualificados e valorizados é um flagelo que impede a execução de políticas culturais de longo prazo, transformando a gestão em uma sucessão de soluções paliativas.
Descentralização: cultura no território e gestão eficiente
A descentralização é um conceito frequentemente mal interpretado no âmbito da gestão cultural. Não se trata apenas de dispersar recursos financeiros, mas de promover uma verdadeira distribuição da máquina pública, levando as decisões e a atuação para mais perto do local onde a cultura e o patrimônio se manifestam e vivem: o território. Esta medida não é meramente uma questão de “modernidade administrativa”, mas uma necessidade intrínseca à natureza do fazer cultural. A cultura se expressa nas comunidades, nas festas populares, nos acervos locais e na paisagem patrimonial, exigindo uma presença estatal que compreenda e atue diretamente nessas realidades.
Aproximando a gestão da realidade local
Equipamentos culturais, como museus, são centros irradiadores da memória e identidade de uma nação, guardiões de tesouros e intérpretes de sua história. Contudo, muitos desses espaços ainda são geridos por estruturas burocráticas distantes, estagnadas e, por vezes, exauridas pela carência de pessoal e acúmulo de funções. Imagine a gestão de um grande complexo esportivo, como um estádio de futebol nacionalmente conhecido: faria sentido ele ser administrado por um corpo burocrático localizado a milhares de quilômetros, sem presença local robusta e sem governança de campo? Certamente não. Da mesma forma, naturalizar essa distância na gestão de museus, patrimônio material, bens ferroviários, sítios arqueológicos ou patrimônio imaterial é condenar essas riquezas à ineficácia administrativa. A falta de engajamento direto com o mundo real e a vivência das necessidades que brotam das pontas impede uma compreensão profunda das demandas culturais. O planejamento central é indispensável, mas a cultura e o patrimônio perdem sua vitalidade quando se transformam em administração sem conexão com o chão, desprovida de sensibilidade territorial.
Fortalecimento dos órgãos regionais de patrimônio
O terceiro ponto crucial para a efetivação de uma política cultural e patrimonial sólida é o fortalecimento dos órgãos regionais. Instituições estaduais e municipais de patrimônio e cultura desempenham um papel vital na proteção e promoção do legado local, atuando como elos diretos com as comunidades e suas manifestações culturais. Muitas dessas instituições, embora dotadas de um corpo técnico dedicado e competente, enfrentam desafios estruturais severos, que limitam sua capacidade de atuação e seu impacto nas regiões.
Autonomia e recursos para o legado cultural estadual
O problema é, fundamentalmente, de natureza político-legislativa: a ausência de dotação orçamentária própria robusta, a carência de um quadro estável de servidores concursados compatível com suas atribuições e a falta de autonomia administrativa necessária para o cumprimento pleno de sua missão pública. Deputados estaduais e vereadores, que representam cidades metropolitanas e do interior — territórios riquíssimos em comunidades que emanam cultura, memória e identidade — têm a responsabilidade de olhar para essas instituições. Projetos de lei que visem fortalecer esses órgãos, museus estaduais e outros equipamentos culturais regionais representariam um investimento mínimo em termos orçamentários — uma fração ínfima do erário estadual — mas entregariam um retorno civilizatório imensurável. Este retorno se traduz em dignidade, senso de pertencimento, fomento ao turismo cultural, estímulo à economia criativa, avanço na educação patrimonial e preservação de um legado inestimável para as futuras gerações. É hora de reconhecer que o Brasil não se resume a poucas vitrines, e que a invisibilidade cultural de territórios inteiros é uma perda para todos, perpetuando um cenário de desigualdade e injustiça cultural.
Conclusão
As eleições de 2026 representam uma oportunidade ímpar para redefinir o tratamento dado à cultura e ao patrimônio no Brasil. Para superar um cenário de desorganização, desigualdade e falta de investimentos duradouros, é imperativo que eleitores e políticos se atentem a três obviedades estruturais: a consolidação de um plano de carreira para o setor cultural, a efetiva descentralização da máquina e dos recursos, e o fortalecimento categórico dos órgãos regionais. Sem uma base de profissionais valorizados, uma gestão próxima da realidade territorial e instituições locais robustas, as intenções de voto e os programas de mandato continuarão distantes de um projeto sério. A história de promessas não cumpridas, editais pontuais e abandono pós-inaugurações precisa ser superada. Cultura e patrimônio são bens públicos civilizatórios, condição essencial para o futuro e não meros adereços de campanha, demandando compromisso real e verificável.
FAQ
Por que a cultura e o patrimônio são frequentemente negligenciados nas eleições?
Essas áreas tendem a ser vistas como “enfeites discursivos” ou pautas secundárias, em vez de elementos estruturais para o desenvolvimento social e econômico. A falta de mobilização coesa do próprio setor cultural antes das eleições contribui para essa marginalização, permitindo que a pauta seja abordada de forma superficial pelos candidatos.
Qual a importância de um plano de carreira para os servidores da cultura?
Um plano de carreira é fundamental para organizar o ingresso, remuneração, progressão e formação continuada dos profissionais. Ele garante estabilidade técnica, retenção de talentos qualificados e memória institucional, evitando o improviso e garantindo a eficiência do Estado na gestão cultural. Sem ele, o setor fica fragilizado e dependente de “gênios de ocasião” ou de abnegados, sem uma base sólida de conhecimento e experiência acumulados.
Como a descentralização da gestão cultural pode beneficiar o país?
A descentralização, tanto financeira quanto administrativa, permite que a gestão cultural esteja mais próxima do território onde a cultura e o patrimônio se manifestam. Isso resulta em maior engajamento com as necessidades locais, decisões mais assertivas e uma administração mais eficaz, evitando que a cultura se torne uma burocracia sem conexão com a realidade. A cultura acontece no “chão”, e sua gestão deve refletir essa proximidade.
Qual o impacto do fortalecimento dos órgãos regionais de patrimônio?
O fortalecimento desses órgãos, com dotação orçamentária robusta, quadros de servidores estáveis e autonomia administrativa, gera um retorno civilizatório imensurável. Isso inclui dignidade, pertencimento, fomento ao turismo cultural, economia criativa, educação patrimonial e a preservação do legado para as futuras gerações, tirando territórios inteiros da invisibilidade cultural e garantindo que as riquezas locais sejam devidamente protegidas e promovidas.
Eleitores, ao se prepararem para 2026, é fundamental que a valorização da cultura e do patrimônio esteja no centro de suas escolhas. Exija dos candidatos propostas concretas para este setor vital, pois ele molda a identidade e o futuro do Brasil.
Fonte: https://diariodorio.com



