A Praça Onze, no coração do Rio de Janeiro, prepara-se para uma transformação urbana significativa com a proposta de demolição do elevado 31 de Março. O projeto, batizado de “Praça Onze Maravilha” e anunciado pelo prefeito Eduardo Paes, visa revitalizar uma região historicamente marcada por intervenções viárias. Embora ainda sem data definida para o início das obras, a iniciativa já movimenta moradores e comerciantes do Catumbi, que vivem um misto de expectativa e apreensão. A remoção do elevado promete redesenhar a paisagem local, mas também levanta questionamentos sobre os impactos temporários na mobilidade e na economia do bairro, além de reacender memórias de um passado de mudanças drásticas.
Elevado 31 de Março: um legado controverso e a promessa de renovação
A cicatriz urbana e suas raízes históricas
Inaugurado em 1979, o Elevado 31 de Março foi uma peça central do ambicioso projeto das Linhas Policromáticas, idealizadas na década de 1960. Conhecida como Linha Lilás, a intervenção levou cinco anos para ser concluída, estabelecendo uma conexão vital entre o bairro do Santo Cristo e a Zona Sul da cidade, via Túnel Santa Bárbara. Na cerimônia de entrega, o então prefeito Marcos Tamoyo reconheceu os transtornos causados, e não era para menos: a construção rasgou o tradicional bairro do Catumbi ao meio, resultando na desapropriação de 145 imóveis, muitos deles residenciais e outros de valor histórico-social.
Entre as construções impactadas estava a antiga sede do Astória Futebol Clube, localizada na Rua Catumbi, nº65, um ponto de encontro que reunia modalidades esportivas como basquete, vôlei e tênis de mesa. José Lanzilotta, um taxista de 67 anos, guarda viva a memória do bairro antes da chegada do elevado. Atleta federado no futsal do Astória, ele recorda das vilas vibrantes, dos desfiles do icônico bloco “Bafo da Onça” e da quadra do “Vai Quem Quer”, além do Largo do Catumbi. Morador da Rua do Paraíso, em Santa Teresa, desde 1972, José tem uma vista privilegiada para o elevado e, apesar de trafegar diariamente pela região, enxerga com otimismo a mudança proposta. “Eu acho que durante a obra vai ser a maior tristeza, porque os motoristas vão ter que desviar muito, mas acho que vai melhorar muito o Catumbi, vai tirar um pouco daquele negócio velho, feio que tem ali”, avalia, ressaltando o potencial de revitalização de um bairro que, segundo ele, é hoje “um bairro de passagem”.
O pulso econômico do Catumbi: entre o fluxo diário e o temor da interrupção
Comércio local: dependência de motoristas e projeções de prejuízo
A rotina do Catumbi, especialmente entre o final da manhã e o início da tarde, revela um cenário movimentado. Dezenas de veículos – táxis, caminhões, carros de aplicativo e particulares – disputam espaço nas margens e sob o viaduto. O motivo é o almoço: a região é um polo gastronômico para quem está de passagem, com restaurantes que lotam diariamente. Os principais pontos de comércio nas proximidades do Elevado 31 de Março são, de fato, estabelecimentos de alimentação.
Um exemplo é o restaurante Flecha de Ouro, na Rua José de Alencar, que há 25 anos serve refeições no almoço. Seu público principal é composto por taxistas, motoristas de aplicativo e funcionários locais. Thiago do Vale, 40 anos, proprietário do restaurante, expressa grande preocupação com o projeto. “O projeto vai impactar muito no restaurante, podendo ocasionar muito prejuízo porque ali vai ser a única passagem para os veículos enquanto estão fazendo a obra. Não terei o público do táxi e aplicativo, que corresponde a mais de 75% dos meus fregueses”, explica Thiago, temendo uma queda drástica no movimento.
Do outro lado do viaduto, na Rua Doutor Lagden, a situação é similar. O Bar do Gaúcho e o restaurante Calçada da Boemia atendem o mesmo perfil de clientela. João, 34 anos, um dos donos do Bar do Gaúcho, ainda não consegue visualizar alternativas viáveis para manter as operações durante as obras. Seu estabelecimento vende entre 200 e 300 refeições por dia, e a maioria, ele supõe, vem de motoristas. “A obra eu acho que vai ser bem complexa e as pessoas eu acho que vão evitar passar por aqui durante um bom tempo”, afirma João, destacando o desafio de reter clientes que dependem da agilidade de acesso.
Apesar de aprovar a ideia geral de revitalização, Breno, um garçom de 30 anos que trabalha há uma década no Calçada da Boemia, questiona a necessidade de demolir completamente o viaduto. “Sabe como é obra, né? Poeira, vai ter que fechar por um tempo, mas pode ser que tenha uma melhoria também”, pondera. Ele argumenta que o elevado é um dos principais pontos de ligação entre o Centro e a Zona Sul. “No meu ponto de vista, dá pra revitalizar o Catumbi, mas sem derrubar o viaduto. No dia a dia já tem trânsito, imagina sem o viaduto”, expressa sua preocupação com o impacto no fluxo viário.
O futuro do Catumbi: segurança, revitalização e a busca por identidade
A visão da comunidade para um bairro renovado
Apesar das diferentes perspectivas e receios levantados pelos comerciantes, um ponto de consenso emerge: a expectativa de melhoria na segurança pública. O Catumbi, embora movimentado durante o dia, torna-se um local deserto e percebido como inseguro durante a noite. Moradores e comerciantes acreditam que as intervenções da prefeitura podem trazer uma nova vida ao bairro, afastando essa sensação de abandono noturno.
Luciano Novo, 43 anos, que trabalha na loja Brownie da Rô, vizinha do Bar do Gaúcho e do Calçada da Boemia, compartilha essa esperança. “Essa parte aqui é morta demais. Poderiam incentivar, colocar uma praça maneira aqui, alguns quiosques, algumas coisas. Vai movimentar o bairro, querendo ou não, vai ter que dar uma melhorada aqui”, avalia Luciano, projetando um Catumbi com mais opções de lazer e convívio social. A revitalização é vista como uma oportunidade de transformar o bairro, conferindo-lhe uma nova identidade e maior vitalidade, especialmente após o anoitecer. A expectativa é que, superados os inevitáveis transtornos das obras, o projeto “Praça Onze Maravilha” consiga entregar um Catumbi mais seguro, moderno e com espaços públicos mais atrativos para seus moradores e visitantes.
Perguntas frequentes sobre a demolição do elevado 31 de Março
Qual o objetivo do projeto “Praça Onze Maravilha”?
O projeto “Praça Onze Maravilha” tem como principal objetivo revitalizar a região da Praça Onze e do Catumbi, com a demolição do Elevado 31 de Março para criar novos espaços públicos, melhorar a mobilidade urbana e aumentar a segurança do bairro.
Quais os principais impactos esperados para o comércio local?
Os comerciantes da região, especialmente os restaurantes que dependem do fluxo de motoristas (taxistas, motoristas de aplicativo), preveem uma queda significativa no movimento e potencial prejuízo financeiro durante o período das obras, devido a desvios e dificuldades de acesso.
A demolição do elevado trará benefícios para a segurança do Catumbi?
Sim, há um consenso entre moradores e comerciantes de que as intervenções e a demolição do elevado devem melhorar a segurança do Catumbi, especialmente à noite, transformando uma área atualmente percebida como “morta” em um espaço mais movimentado e seguro.
Para saber mais detalhes sobre o andamento do projeto “Praça Onze Maravilha” e seus próximos passos, mantenha-se informado através dos canais oficiais da prefeitura e da cobertura jornalística local.
Fonte: https://temporealrj.com



