No efervescente cenário do carnaval carioca, o “Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa” emerge como uma manifestação cultural de profundo significado social. Desfilando pelas ruas da Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro, este bloco não é apenas uma festa, mas um potente grito por respeito e integração para as trabalhadoras do sexo da região, historicamente marcada por estigmas. Desde sua criação em 2018, por moradores locais, o bloco busca resgatar a memória e celebrar a riqueza cultural da Vila Mimosa, uma área que, apesar de ser um ponto de trabalho sexual, pulsa com vidas, histórias e uma comunidade vibrante. Em meio a músicas de apoio e homenagens, a iniciativa enfrenta o desafio delicado de efetivamente integrar essas mulheres ao coração da folia, rompendo barreiras de preconceito e insegurança.
Desafios na busca por integração e respeito
A cena é emblemática: do carro de som, o locutor convoca aplausos para as trabalhadoras do sexo, ecoando a mensagem de que “é uma vida difícil e elas merecem respeito”. O samba, então, ressoa com versos dedicados às mulheres da Vila Mimosa. Contudo, apesar do apoio vocalizado, a maioria das trabalhadoras opta por não se juntar diretamente ao desfile. Elas preferem observar e dançar das calçadas ou do interior dos bares, numa manifestação ambivalente de participação.
A ambivalência da participação
Estrela, de 58 anos, exemplifica essa postura. “Eu vou dançar aqui de longe, porque não quero chamar muito a atenção”, revela. Ela explica que, embora se sinta à vontade em seu ambiente de trabalho na boate, há um receio de como sua participação ativa no bloco poderia ser percebida. “Na boate, não estou nem aí, mas tenho medo que o bloco ache ruim eu dançar com ele, então fico dançando aqui, porque eu respeito”, completa, expressando uma complexa mistura de desejo de pertencimento e cautela frente ao julgamento externo. Este é um dos principais obstáculos para o “Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa”, que desfilou em uma noite chuvosa de sexta-feira pelas ruas da Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro, buscando a integração, mas se deparando com a resistência gerada por anos de marginalização e preconceito.
Barreiras socioeconômicas e o medo da exposição
Cleide Almeida, presidente do bloco e assistente social, contextualiza essa dificuldade. “Algumas trabalhadoras fogem, porque ficam com medo de serem filmadas e aparecer na mídia”, afirma. Outras, porém, animam-se e descem para a rua, dispostas a desfilar. Cleide ressalta que a integração plena e o maior engajamento só são alcançados com apoio financeiro e a implementação de projetos sociais contínuos, algo que, infelizmente, tem sido escasso. “Precisamos desse apoio”, salienta.
Felipe Vasconcellos, um dos líderes da banda “Enxota que eu vou”, que há três anos anima o bloco, reforça que as barreiras socioeconômicas são cruciais. “Nossa luta nesse tempo todo é para integrar essas meninas ao bloco. Mas é difícil por muitas questões. Elas trabalham até tarde, têm filhos, moram aqui. Vão dormir tarde, têm que cuidar da família”, explica. A rotina exaustiva e as responsabilidades familiares muitas vezes impedem que essas mulheres encontrem tempo ou mesmo interesse para participar de atividades adicionais, como cursos de percussão ou ensaios para o bloco, limitando seu protagonismo na festa.
Carnaval como plataforma de conscientização e resgate da dignidade
Apesar dos desafios, o bloco cumpre um papel fundamental ao trazer visibilidade para as questões enfrentadas pelas trabalhadoras do sexo e para a história da Vila Mimosa, transformando o carnaval em uma potente ferramenta de conscientização.
Visão da comunidade e superação de preconceitos
Laísa, de 21 anos, que trabalha na Vila Mimosa há cinco, percebe o bloco como um elemento positivo para todos, mesmo sem desfilar ativamente. “Aqui é um local de trabalho bom e o bloco é uma alegria”, diz. Ela enfatiza que, embora muitas precisem trabalhar durante o desfile, a iniciativa ajuda a valorizar a região e as próprias mulheres. “A realidade hoje em dia é de muito preconceito, mas o bloco é muito bom para alertar sobre isso”, conclui Laísa, cuja jornada é de necessidade: “Chego aqui na sexta-feira e vou embora para casa na segunda. É a única forma de fazer um dinheiro para pagar aluguel, pagar as coisas em casa direitinho. Peço que aqui nunca feche, porque a gente está trabalhando”.
A presidente Cleide Almeida reitera o objetivo primordial do bloco: desconstruir a imagem negativa do local e de suas moradoras. “Todo mundo que mora no Rio deveria vir aqui e conhecer melhor a vida da trabalhadora sexual. São mulheres como outras: mães, irmãs, filhas e avós. As pessoas precisam conhecer a história dessas mulheres, não as julgar. E o bloco traz isso. É um bloco para derrubar tabus”, declara.
A jornada de Estrela: desconstruindo estereótipos
A história de Estrela, que escolheu apreciar o bloco à distância, é um testemunho vivo da complexidade e da diversidade das vidas dessas mulheres. Longe de um estereótipo, Estrela revela ser técnica de enfermagem, tendo buscado a Vila Mimosa por necessidade financeira, após perder mais de 100 mil reais em um golpe. “Eu sou técnica de enfermagem e venho em busca de um extra. Comecei aqui por causa de dívida alta. Caí em um golpe e perdi mais de R$ 100 mil. Consegui pagar tudo, mas continuei porque ganho muito dinheiro aqui. Não devo nada para a sociedade, tenho dois filhos criados. Estou aqui para manter o que tenho e adquirir mais”, explica. Sua narrativa desafia categorizações simplistas e reforça a mensagem do bloco sobre a humanidade e as diversas motivações por trás do trabalho sexual.
Pessoas como a administradora Daniela Tarta, que visitou o bloco pela primeira vez, vieram justamente com a ideia de conhecer melhor a região e quebrar preconceitos. “É o momento de vir aqui, de tentar me aproximar dessa população que é tão menosprezada, tão desqualificada. Viemos aqui para apoiá-las”, afirma Daniela. “Aqui tem pessoas como qualquer outro lugar. É um espaço aberto, completamente democrático. Eu acredito nisso”.
A história da Vila Mimosa: de Zona do Mangue à luta por reconhecimento
A Vila Mimosa carrega em sua essência a herança de uma história urbana e social intrincada, que remonta ao final do século XIX e início do século XX.
Da Zona do Mangue à Vila Mimosa: uma evolução urbana
O principal local de prostituição do Rio de Janeiro se concentrava originalmente na antiga Zona do Mangue, nas proximidades do Canal do Mangue e da atual Avenida Presidente Vargas, na região central da cidade. Ao longo do século XX, intervenções urbanas e políticas de “ordenamento” do centro da cidade impulsionaram a migração de bares e casas noturnas para outras áreas. Foi nesse contexto que a Praça da Bandeira, com seus galpões e terrenos industriais, começou a acolher as trabalhadoras do sexo. A consolidação da Vila Mimosa como o conhecido centro de trabalho sexual ocorreu em meados da década de 1990, estabelecendo-se como um espaço de trabalho e moradia para centenas de mulheres.
Demandas por reconhecimento e apoio público
Atualmente, a luta de movimentos sociais, associações de moradores e das próprias trabalhadoras do sexo é para que a Vila Mimosa, frequentemente referida como VM, receba maior atenção do poder público. As demandas incluem a promoção de serviços básicos, o reconhecimento de direitos e a melhoria da estrutura urbana. Tais ações são vistas como essenciais para lidar com a complexidade social e histórica da região, garantindo dignidade e melhores condições de vida para suas moradoras e trabalhadores, reconhecendo a necessidade de políticas que abordem a realidade multifacetada do local.
Conclusão
O “Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa” transcende a mera celebração carnavalesca; ele se estabelece como um movimento vital na luta contra o estigma e pela dignidade das trabalhadoras do sexo. Ao resgatar a história e a cultura local, o bloco oferece um espaço de visibilidade e defesa, desafiando preconceitos enraizados e promovendo uma visão mais humana e complexa da Vila Mimosa e de suas moradoras. Apesar dos desafios de integração, a iniciativa permanece um farol de esperança, demonstrando o poder do carnaval como plataforma para o diálogo social e a transformação de percepções, reiterando a importância de um olhar empático sobre realidades muitas vezes marginalizadas.
Perguntas frequentes
1. Qual o principal objetivo do Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa?
O bloco tem como objetivo principal celebrar a memória e a potência cultural da Vila Mimosa, integrar as trabalhadoras do sexo da região e, sobretudo, combater o estigma e o preconceito associados ao local e à profissão, buscando derrubar tabus e promover o respeito.
2. Por que nem todas as trabalhadoras do sexo se integram ao desfile ativamente?
A não integração total se deve a diversos fatores, incluindo o medo de serem filmadas e expostas na mídia, receio de julgamento social, e barreiras socioeconômicas como longas jornadas de trabalho, responsabilidades familiares e falta de tempo para participar de atividades do bloco.
3. Qual a importância histórica da Vila Mimosa?
A Vila Mimosa é herdeira da antiga Zona do Mangue, o principal ponto de prostituição do Rio nos séculos XIX e XX. Ela se consolidou na Praça da Bandeira em meados da década de 1990 após intervenções urbanas no centro, tornando-se um local histórico de trabalho sexual e residência, com uma rica e complexa trajetória social e cultural.
4. Como o bloco busca combater o preconceito?
O bloco combate o preconceito ao humanizar as trabalhadoras do sexo, apresentando-as como mães, filhas, irmãs e cidadãs, e ao convidar a sociedade a conhecer suas histórias e realidades. Através da música, do desfile e da própria existência do evento, ele alerta sobre a importância do respeito e da não-discriminação, buscando derrubar tabus e fomentar a aceitação.
Reflita sobre as histórias de resiliência e a luta por dignidade que o Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa representa. Compartilhe este conteúdo e ajude a amplificar a mensagem de respeito e integração!



