O Circo de Tradição Familiar alcançou, nesta semana, um marco histórico ao ser oficialmente reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil. A decisão, tomada pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, vinculado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), garante a inclusão dessa centenária manifestação artística no Livro de Registro das Formas de Expressão. Este reconhecimento não apenas celebra a riqueza de uma arte que pulsa por todo o país, mas também valida a luta incansável de gerações de artistas circenses. Descrito pelo Iphan como uma manifestação cultural itinerante, o circo familiar se estrutura em torno de núcleos familiares e perpetua seus saberes, técnicas e modos de vida através da transmissão oral, conectando o passado ao presente e garantindo a continuidade de um legado inestimável para a cultura brasileira.
O reconhecimento de uma jornada centenária
A decisão que eleva o Circo de Tradição Familiar ao status de Patrimônio Cultural do Brasil representa o culminar de uma longa e dedicada jornada. O Conselho Consultivo do Iphan, ao aprovar o registro, sublinhou a relevância nacional dessa manifestação, destacando não apenas sua capacidade de promover espetáculos cativantes, mas também suas práticas lúdicas intrínsecas e a memória social que ela preserva.
A essência do circo itinerante e familiar
O circo tradicional brasileiro, em sua essência, é um universo de movimento e união. Suas tendas coloridas e a atmosfera mágica que se instala em cada cidade por onde passa são a representação física de uma cultura nômade e resiliente. O Iphan detalha essa manifestação como um organismo vivo, itinerante por natureza, cujos conhecimentos são transmitidos de boca em boca, de geração para geração. São saberes que abrangem desde a montagem e desmontagem da lona até as complexas técnicas acrobáticas, a arte da palhaçaria e a administração de uma companhia em constante movimento. Essa estrutura familiar não é apenas um modelo organizacional, mas o cerne da sua identidade, onde os laços de parentesco se entrelaçam com a paixão pela arte, moldando formas únicas de convivência e expressão cultural. A vitalidade do circo reside justamente nessa capacidade de se reinventar a cada nova cidade, mantendo viva a chama da tradição enquanto encanta públicos de todas as idades com a magia do picadeiro.
A persistência de uma família: o legado Zanchettini
A reunião que selou o destino do Circo de Tradição Familiar como patrimônio cultural, realizada no histórico Palácio Gustavo Capanema, no centro do Rio de Janeiro, na última quarta-feira (11), coroa a persistência e a dedicação de inúmeras famílias que mantêm essa tradição viva. Entre elas, o Circo de Tradição Familiar Zanchettini, fundado no Paraná em 1991, emergiu como um pilar fundamental e pioneiro nesse processo de reconhecimento.
Wanda Cabral Zanchettin: a visionária por trás da luta
A história da família Zanchettini e sua incansável luta por reconhecimento é inseparável do nome de Wanda Cabral Zanchettin. Nascida em 1931, Wanda, aos 18 anos, já brilhava no picadeiro do circo cigano Irmãos Marques, acompanhada de sua mãe e irmãos. Em 1949, conheceu o italiano Primo Júlio Zanchettin, um encontro que daria início a uma saga familiar e artística. Juntos, com os parentes de Wanda, fundaram o Circo Teatro Gávea. “O circo era pequeno, mas, ali, a gente aprendeu tudo. A mãe passava as técnicas pra gente. Ela sabia tudo sobre circo e sobre as artes”, recorda Erimeide Maria, uma das dez filhas do casal, que cresceu imersa nessa cultura.
Após o falecimento de seu marido, Primo Júlio, em 1991, Wanda renomeou a companhia para Circo Zanchettini, em uma homenagem póstuma ao companheiro de vida e arte, que a acompanhou como artista e palhaço. Desde 1993, Wanda Cabral Zanchettin encabeçou a batalha para que a categoria recebesse o reconhecimento que, infelizmente, só chegou mais de 30 anos depois de sua iniciativa. O pedido oficial de registro foi protocolado por ela no Iphan em 2005, um gesto que mobilizou um vasto contingente de famílias circenses, associações, pesquisadores e instituições públicas. A decisão histórica desta semana, no entanto, veio após sua morte, ocorrida em 2017. Seu legado, contudo, é imortal, e a vitória é um testemunho da sua paixão e visão.
A voz da nova geração e o “Oscar do circo brasileiro”
A emoção transborda nas palavras de Edlamar Maria Cabral Zanchettin, de 68 anos, filha de Wanda e uma das herdeiras da rica tradição circense. Ela reivindica, com orgulho, o protagonismo de sua família na conquista: “Foi a nossa família quem protocolou, quem trabalhou, foi a Brasília, fez reunião. Tudo fomos nós, mas fizemos na abrangência de todos os circos brasileiros, principalmente, a nossa maior luta é para o reconhecimento dos nossos antepassados”. Edlamar celebrou a vitória com uma comparação grandiosa: “É como um Oscar para o circo brasileiro, porque é para todos”. O único pesar, compreensível, é que sua mãe, Wanda, não tenha testemunhado esse momento de glória. “Lutou muito por isso, mas, infelizmente, não chegou a alcançar este momento de glória. Foi a pessoa que foi na frente, nos empurrou, nos deu força e chegamos, graças a Deus, a esse reconhecimento”, lamentou Edlamar.
A vida dos dez irmãos Zanchettini (cinco mulheres e cinco homens), filhos de Wanda e Primo, se desenrolou sob a lona, com o circo como lar e escola. “A gente foi nascendo e crescendo em barracas em volta do circo”, relatou Erimeide, que, assim como seus irmãos Edlamar, Márcia Aparecida, Solange Maria, Áurea, Silvio Marcos, Sérgio, Jaime, Márcio e Amauri, dominou diversas artes, atuando como trapezista, cantora, acrobata e atriz. Apesar dos desafios inerentes à vida circense, a união familiar sempre foi a força motriz. “É uma luta difícil e continua sendo para todos os circenses, muito trabalhosa, mas com a união dos irmãos, mãe, pai e agregados, a gente teve sempre uma vida feliz em circo, que é nossa grande paixão, nosso amor”, pontuou Erimeide, destacando a profunda ligação com essa arte. A renovação no circo familiar é constante, com a geração mais nova já integrada ao elenco do Zanchettini, mantendo viva a tradição e o “linguajar nosso” que permeia toda a sabedoria circense. Até mesmo um dos sobrinhos da família, seguindo a vocação artística, expandiu os horizontes, trabalhando como artista circense em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, demonstrando a universalidade e a perenidade dessa arte transmitida “de geração em geração”.
Desafios e esperanças para o futuro do picadeiro
A vida itinerante dos circos de tradição familiar, que se estende por diversos estados do Brasil e até mesmo por países vizinhos como Paraguai, Argentina e Bolívia, é marcada por uma série de desafios persistentes. Edlamar Zanchettin aponta a crescente concorrência como um dos maiores obstáculos. Apresentações de celebridades e shows gratuitos frequentemente desviam a atenção do público, que muitas vezes não distingue o espetáculo tradicional do circo contemporâneo.
A batalha contra a modernidade e as barreiras burocráticas
O circo tradicional brasileiro se orgulha de sua autenticidade. “Esses não têm o circo tradicional brasileiro, do palhaço da cara pintada, do trapézio, do globo da morte, do malabarismo, do contorcionismo. A gente leva o tradicional. Não temos personagens, não temos celebridades de TV, não temos dinossauros. Nós somos raiz”, afirma Edlamar, diferenciando a essência de sua arte. Outro entrave significativo reside nos altos custos operacionais, exacerbados por impostos e taxas cobradas pelo Poder Público. Há uma lamentável falta de compreensão por parte das autoridades, que frequentemente categorizam os circos como estruturas permanentes ou grandes eventos comerciais. “Eles nos cobram como se fôssemos edificados, uma farmácia, um supermercado ou nos cobram como evento grande, não como cultura”, reclama a administradora. A cobrança pelo uso do solo, paga adiantada, é um exemplo cruel: “Se chover, a prefeitura já ganhou, e a gente, não”, ilustra, evidenciando a vulnerabilidade financeira do setor. Esses obstáculos são enfrentados por grande parte dos circos familiares do Brasil, com muitas companhias menores e menos numerosas lidando com dificuldades ainda maiores. Apesar das adversidades, que incluem “vários tipos de falência”, a paixão pelo circo sempre impulsiona a recuperação e o recomeço, um “amor tão forte e um sentimento poderoso pelo circo que a gente não sabe de onde vem”.
O impacto transformador do título de patrimônio
Diante de um cenário tão desafiador, o reconhecimento como Patrimônio Cultural do Brasil representa uma luz no fim do túnel. A expectativa de Edlamar é que esse título traga uma mudança significativa para as dificuldades financeiras enfrentadas. “Fica mais fácil falar com o prefeito para ver o que ele pode fazer dentro do regulamento do Iphan. Seja um preço menor, um terreno da prefeitura gratuito”, avalia, esperançosa de que o diálogo com o poder público se torne mais produtivo e focado no fomento cultural, em vez da mera taxação comercial. “Esse reconhecimento não é qualquer um que tem e será de grande valia para nós”, conclui, antevendo um futuro onde o amor e a dedicação à arte circense possam florescer com maior apoio e compreensão, garantindo que o “Oscar para o circo brasileiro” seja um catalisador para a preservação e prosperidade dessa expressão cultural tão fundamental.
Um legado de resiliência e arte
O reconhecimento do Circo de Tradição Familiar como Patrimônio Cultural do Brasil é muito mais do que um título honorário; é a validação de uma forma de vida, de uma herança transmitida com sacrifício e amor através das gerações. É a celebração de uma arte que, apesar de todas as adversidades – financeiras, burocráticas e competitivas –, insiste em existir, em viajar, em montar sua lona e em espalhar alegria. A saga da família Zanchettini, personificada na incansável Wanda Cabral Zanchettin e continuada por seus descendentes, ilustra a resiliência inata do espírito circense. Este marco histórico deve servir como um catalisador para a valorização e o apoio a todos os circos tradicionais do país, assegurando que o brilho do picadeiro, com seus palhaços de cara pintada, trapezistas audaciosos e malabaristas habilidosos, continue a encantar e a construir a memória social das futuras gerações de brasileiros.
Perguntas frequentes sobre o Circo de Tradição Familiar
O que é o Circo de Tradição Familiar?
É uma manifestação cultural brasileira caracterizada por ser itinerante, organizada em torno de núcleos familiares e pela transmissão oral de saberes, técnicas, modos de fazer e formas de convivência entre gerações, abrangendo diversas expressões artísticas circenses.
Qual a importância do reconhecimento como Patrimônio Cultural?
O reconhecimento pelo Iphan eleva o Circo de Tradição Familiar ao status de Patrimônio Cultural do Brasil, garantindo sua inclusão no Livro de Registro das Formas de Expressão. Isso valida sua relevância nacional, valoriza suas práticas lúdicas e a memória social que preserva, além de potencialmente facilitar o apoio do poder público e a superação de desafios financeiros.
Quem liderou o processo para este reconhecimento?
A família Zanchettini, em especial Wanda Cabral Zanchettin, que protocolou o pedido oficial no Iphan em 2005. Sua luta de mais de 30 anos foi fundamental, embora o reconhecimento tenha ocorrido após seu falecimento em 2017.
Quais os principais desafios enfrentados pelos circos tradicionais?
Os principais desafios incluem a concorrência com apresentações de celebridades e shows gratuitos, altos custos operacionais, impostos e taxas municipais cobradas como se fossem edificações ou grandes eventos comerciais, e a dificuldade de diálogo com as autoridades para um tratamento adequado como expressão cultural.
Como o reconhecimento pode ajudar a superar esses desafios?
A expectativa é que o título de Patrimônio Cultural fortaleça o diálogo com prefeituras e órgãos públicos, podendo resultar em preços menores para uso de solo, terrenos gratuitos e maior compreensão da natureza cultural e não puramente comercial do circo, facilitando a gestão e garantindo a continuidade da tradição.
Para saber mais sobre como você pode apoiar e vivenciar a magia do Circo de Tradição Familiar, procure por circos itinerantes em sua região e contribua para a manutenção desta arte secular que é parte da nossa história e identidade.



