A criação de um código de conduta para ministros de tribunais superiores ganhou um novo e estratégico capítulo no cenário jurídico brasileiro. A decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, de designar a ministra Cármen Lúcia como relatora da proposta, foi um movimento calculado e previamente comunicado à maioria de seus pares. Internamente, a iniciativa é interpretada como uma tentativa de proteger a proposta de críticas externas e internas mais intensas, funcionando como um “freio de arrumação” na condução do debate sobre o tema. A recepção inicial entre os membros da Corte foi majoritariamente positiva, indicando um alinhamento em relação à metodologia de encaminhamento da pauta.
A movimentação interna no STF: Código de Conduta e a relatoria
O anúncio e as expectativas internas
O anúncio oficial da relatoria de Cármen Lúcia ocorreu durante o discurso de Fachin na sessão solene de abertura do ano do Judiciário, evidenciando a relevância institucional da medida. Em sua fala, o presidente do STF reiterou o compromisso de sua gestão com a elaboração do código de conduta, um projeto que, apesar de encontrar certa resistência entre alguns integrantes da Corte, é visto como fundamental para a integridade e transparência. A resistência prévia estava, em parte, relacionada à percepção de que o debate estava sendo imposto “de fora para dentro”, o que gerava desconforto e críticas sobre a forma de abordar a questão complexa da ética e conduta dentro de um tribunal de cúpula.
A escolha e o anúncio de Cármen Lúcia para a relatoria foram, portanto, mais do que uma mera delegação de tarefa. Representaram um gesto político e institucional significativo, sinalizando um reconhecimento da necessidade de construir as soluções para questões internas a partir dos próprios ritos e dinâmicas da Corte. Para uma ala de ministros, essa abordagem valoriza a autonomia do Supremo e garante que o código, ao final, seja um produto de discussões profundas e em conformidade com as particularidades da instituição. Fachin agradeceu publicamente à ministra por aceitar a função, reforçando a importância de uma construção coletiva e pautada pelo consenso dentro do colegiado.
Resistências e a busca por consenso
Apesar do impulso dado pela indicação da relatora, a proposta do código de conduta ainda enfrenta obstáculos consideráveis. A existência de resistências não é novidade; alguns ministros manifestam preocupações sobre a necessidade de tal código, argumentando que a atuação dos magistrados já é regida por normas robustas, como a Lei Orgânica da Magistratura Nacional (LOMAN). Para esses integrantes, um novo código poderia ser redundante ou, pior, gerar conflitos normativos.
Há também a percepção de que o tema exige “muita conversa”, indicando que não há ambiente para uma votação em curto prazo. A complexidade do assunto e as diferentes visões sobre a autonomia e a fiscalização da conduta dos ministros demandam um processo de diálogo extenso e aprofundado. Além disso, o ano eleitoral em curso é apontado como um fator complicador, pois as instituições tendem a estar mais expostas a pressões e escrutínio público, o que poderia contaminar o debate sobre um tema tão sensível quanto a conduta ética dos membros do Judiciário. A busca por consenso, portanto, será uma tarefa árdua para a ministra relatora.
O papel estratégico de Cármen Lúcia na proposta
Um gesto de blindagem e institucionalidade
A nomeação da ministra Cármen Lúcia para a relatoria do código de conduta é percebida como um movimento estratégico de Fachin para “blindar” a iniciativa. Essa blindagem não se refere apenas a críticas externas, mas também a garantir que o processo de discussão e elaboração do código se dê de forma ordenada e respeitando a institucionalidade do STF. Cármen Lúcia, com sua vasta experiência e trânsito entre diferentes correntes da Corte, é vista como uma figura capaz de mediar os debates e conciliar interesses divergentes.
Nos bastidores, ministros avaliam que, ao indicar a ministra para a relatoria, Fachin sinalizou que a proposta deixou o plano meramente retórico e começou a tramitar de forma concreta dentro do tribunal. Este gesto é crucial para demonstrar que a presidência está ativamente impulsionando a iniciativa, o que contribui para aliviar a pressão interna e externa sobre a liderança da Corte em relação à pauta da ética e transparência. A movimentação transforma o que antes era uma ideia geral em um projeto com uma relatora designada, um caminho institucional claro para sua tramitação e potencial aprovação.
Desafios e o caminho da construção coletiva
Embora a escolha de Cármen Lúcia tenha sido bem recebida, o caminho para a aprovação de um código de conduta definitivo ainda será pavimentado por desafios. A expectativa é que a ministra consiga “baixar a temperatura” do debate, transformando-o em um processo mais construtivo e menos polarizado. Isso implica em ouvir atentamente os colegas, entender as diferentes perspectivas e trabalhar na construção de uma proposta que incorpore as preocupações e sugestões de todos.
A construção coletiva, enfatizada por Fachin, é a chave para o sucesso do projeto. Não se trata de impor um conjunto de regras, mas de elaborar um código que reflita os valores e as expectativas de conduta de uma Corte plural e de grande responsabilidade institucional. A habilidade de Cármen Lúcia em promover o diálogo e a conciliação será determinante para que o código de conduta não apenas seja aprovado, mas que também obtenha legitimidade e adesão interna, garantindo sua efetividade na prática.
Os próximos passos para a ética na magistratura
O debate sobre a integridade e a transparência, com a elaboração de um Código de Conduta específico para a Corte, é uma das prioridades internas da atual presidência do STF. A nomeação de Cármen Lúcia como relatora é um passo fundamental nesse compromisso, reafirmado por Fachin em diversas ocasiões, inclusive na abertura do Ano Judiciário de 2026. A iniciativa visa fortalecer a imagem do Judiciário e alinhar a conduta de seus membros com as crescentes demandas da sociedade por maior fiscalização e responsabilidade.
Contudo, o sucesso do projeto dependerá da capacidade de superar as resistências e de construir um consenso robusto. Os argumentos dos céticos, que apontam para a existência de normas já em vigor e a complexidade do contexto político atual, não podem ser ignorados. A relatoria terá o desafio de demonstrar a necessidade e a pertinência de um novo código, conciliando as tradições e a autonomia da magistratura com as expectativas contemporâneas de ética e transparência. A jornada será longa, mas o caminho para um STF mais transparente e íntegro está agora mais claramente traçado.
FAQ – Perguntas Frequentes
1. Por que a ministra Cármen Lúcia foi escolhida para relatar a proposta de Código de Conduta?
A escolha da ministra Cármen Lúcia é vista como um movimento estratégico do presidente Edson Fachin para institucionalizar o debate, proteger a proposta de críticas mais intensas e garantir que a discussão e elaboração do código ocorram dentro dos ritos internos do STF, com busca por consenso entre os ministros.
2. Quais são as principais críticas e resistências à proposta de Código de Conduta?
As resistências incluem argumentos de que já existem normas reguladoras (como a LOMAN), que o debate estava sendo conduzido “de fora para dentro”, que o tema exige “muita conversa” e não há ambiente para votação a curto prazo, especialmente em ano eleitoral, onde as instituições estão mais expostas a pressões.
3. Qual o objetivo principal do Código de Conduta para ministros de tribunais superiores?
O objetivo é promover o debate institucional sobre integridade e transparência dentro do Supremo Tribunal Federal, culminando na elaboração de um conjunto de normas éticas específicas que guiem a conduta dos ministros, fortalecendo a imagem do Judiciário e respondendo às demandas sociais por maior responsabilidade e fiscalização.
4. A proposta de Código de Conduta é vista como uma resposta a algum evento específico?
Sim, internamente, o código de conduta passou a ser visto por uma ala da Corte como uma resposta ao desgaste provocado por desafios institucionais e questões internas, buscando restaurar a confiança e a legitimidade da Corte.
Para acompanhar os desdobramentos desta iniciativa crucial para a governança do Supremo Tribunal Federal, continue acessando informações atualizadas sobre a tramitação do Código de Conduta.
Fonte: https://www.infomoney.com.br



