Mehdi Mahmoudian, um dos aclamados roteiristas do filme “Foi Apenas um Acidente”, que concorre em importantes categorias no Oscar 2026, foi detido na capital iraniana, Teerã, no último sábado. A prisão do roteirista iraniano, que já mobiliza a comunidade artística internacional, ocorreu em um momento de crescentes tensões políticas no país. Mahmoudian não estava sozinho: ele foi detido ao lado de outros dois signatários de uma contundente carta que critica abertamente as ações do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. Este incidente sublinha a difícil situação dos artistas e intelectuais no país que ousam manifestar qualquer forma de dissidência política, reverberando um clima de repressão que se intensifica.
A detenção e o clamor contra o regime iraniano
A prisão de Mehdi Mahmoudian, uma figura proeminente no cenário cinematográfico iraniano, representa um novo capítulo na repressão à liberdade de expressão no país. Sua detenção não é um evento isolado, mas parte de uma série de ações contra vozes críticas ao governo.
A prisão de Mehdi Mahmoudian e a carta de dissenso
No sábado, Mehdi Mahmoudian foi levado sob custódia em Teerã. A ação das autoridades iranianas se deu em resposta à sua participação na autoria e assinatura de uma carta que critica severamente a liderança do aiatolá Ali Khamenei. Mahmoudian não foi o único alvo; outros dois signatários da mesma carta foram detidos simultaneamente, evidenciando uma coordenação nas prisões.
A missiva, que conta com um total de 17 signatários, incluindo o renomado diretor Jafar Panahi – colaborador de Mahmoudian no roteiro de “Foi Apenas um Acidente” –, denuncia publicamente as políticas e ações do líder supremo. O documento é um testemunho da crescente insatisfação e coragem de figuras públicas iranianas que se posicionam contra o establishment religioso e político. A revista Variety destacou a gravidade da carta e o risco assumido por seus autores ao desafiar diretamente o poder.
O teor das acusações e a brutalidade do governo
A carta assinada por Mahmoudian e seus colegas não poupa críticas ao regime, utilizando uma linguagem forte para descrever a situação dos direitos humanos no Irã. O texto acusa o governo de “assassinato em massa e sistemático de cidadãos que corajosamente saíram às ruas para pôr fim a um regime ilegítimo”. Segundo os signatários, tais atos constituem um “crime organizado de Estado contra a humanidade”.
O documento detalha o uso de munição real contra civis, resultando na morte e prisão de dezenas de milhares de pessoas. Além disso, a carta denuncia ataques a feridos, a obstrução de cuidados médicos essenciais e o assassinato de manifestantes feridos, concluindo que essas ações “equivalem a nada menos do que um ataque à segurança nacional do Irã e uma traição ao país”. A declaração reflete uma profunda indignação e uma crítica direta à brutalidade empregada pelo governo em meio a uma onda de protestos populares contra os líderes religiosos iranianos, que se intensificaram nos últimos anos.
‘Foi Apenas um Acidente’: um filme com a marca da resistência
O trabalho artístico de Mehdi Mahmoudian, especialmente no filme “Foi Apenas um Acidente”, transcende a mera ficção, transformando-se em um espelho das realidades políticas e sociais do Irã. Sua prisão lança uma sombra sobre a comunidade cinematográfica, mas também destaca a potência de sua obra.
O reconhecimento no Oscar e a trama do longa-metragem
“Foi Apenas um Acidente” não é apenas um filme; é uma declaração. O longa-metragem concorre em duas categorias de prestígio no Oscar 2026: Melhor Roteiro Original, assinado por Mahmoudian, Jafar Panahi, Nader Saïvar e Shadmehr Rastin, e Melhor Filme Internacional. Na categoria de Filme Internacional, a produção iraniana disputa diretamente com o brasileiro “O Agente Secreto”, evidenciando o alcance global e a relevância temática da obra.
O enredo de “Foi Apenas um Acidente” acompanha a jornada de quatro ex-condenados pelo regime iraniano. A trama se desenrola quando eles acreditam ter identificado em um homem o seu antigo torturador, mergulhando em questões de justiça, memória e as cicatrizes deixadas pela repressão. O filme, atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros, utiliza a ficção para explorar traumas reais e as complexidades de um sistema opressor, o que torna a prisão de seu roteirista ainda mais simbólica e alarmante.
A parceria criativa e a Palma de Ouro
A colaboração de Mehdi Mahmoudian com o aclamado diretor Jafar Panahi é um ponto central na narrativa de “Foi Apenas um Acidente”. Panahi, que foi agraciado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2025 por este mesmo filme, já havia enfrentado suas próprias batalhas contra o regime, incluindo condenações e proibições de fazer filmes. A parceria entre os dois cineastas é um testemunho da resiliência e da determinação em contar histórias, mesmo sob grande pressão.
Panahi revelou que conheceu Mahmoudian quando ambos eram presos políticos. Foi essa experiência compartilhada que levou o diretor a pedir a Mahmoudian que o ajudasse a “refinar” os diálogos do filme, infundindo à obra uma autenticidade e profundidade raras. A fusão das experiências pessoais dos criadores com a trama do filme reforça a ideia de que a arte pode ser uma forma poderosa de resistência e denúncia.
A voz da dissidência: o histórico de perseguição a artistas
A prisão de Mehdi Mahmoudian não é um evento isolado, mas mais um episódio na longa história de perseguição a artistas e intelectuais no Irã. O caso destaca a luta contínua pela liberdade de expressão e a solidariedade entre aqueles que desafiam o regime.
O apoio de Jafar Panahi e a solidariedade entre cineastas
Diante da prisão de seu colega, Jafar Panahi rapidamente divulgou um comunicado em apoio a Mehdi Mahmoudian. Em suas palavras, Panahi expressou profunda admiração e preocupação, destacando a importância de Mahmoudian não apenas como artista, mas como figura moral. “Mehdi Mahmoudian não é apenas um ativista dos direitos humanos e um prisioneiro de consciência; ele é uma testemunha, um ouvinte e uma presença moral rara – uma presença cuja ausência é imediatamente sentida, tanto dentro das paredes da prisão quanto fora delas”, escreveu Panahi.
Essa declaração vai além de uma simples manifestação de apoio; ela é um chamado à atenção global para a situação de Mahmoudian e outros presos políticos. A solidariedade de Panahi, ele próprio uma vítima da repressão, ressalta a rede de apoio e a resistência que se forma entre os artistas iranianos frente às adversidades. A relação entre os dois, forjada na adversidade da prisão, sublinha como a experiência do cativeiro pode, paradoxalmente, fortalecer os laços e a determinação em continuar a luta pela justiça e liberdade.
O contínuo cerco à liberdade de expressão no Irã
O caso de Mehdi Mahmoudian se insere em um padrão preocupante de cerceamento da liberdade de expressão no Irã. Jafar Panahi, por exemplo, foi condenado a um ano de prisão no ano passado por “atividades de propaganda” contra o Estado. Seu histórico de proibições de viagem e de trabalho reflete a estratégia do regime de silenciar vozes dissidentes.
A brutalidade governamental, descrita na carta assinada por Mahmoudian e Panahi, não se restringe a manifestantes nas ruas, mas se estende a qualquer forma de crítica, seja ela jornalística, acadêmica ou artística. A perseguição a cineastas, escritores e ativistas é uma tática para intimidar a população e manter o controle. A prisão de roteiristas de filmes indicados a prêmios internacionais serve como um duro lembrete dos riscos que correm aqueles que escolhem usar sua arte para denunciar injustiças e exigir mudanças em um contexto de intensa vigilância e repressão.
Perguntas frequentes
Quem é Mehdi Mahmoudian?
Mehdi Mahmoudian é um roteirista iraniano, conhecido por seu trabalho no filme “Foi Apenas um Acidente”, que foi indicado a duas categorias no Oscar 2026. Ele também é ativista dos direitos humanos.
Por que Mehdi Mahmoudian foi preso?
Ele foi detido em Teerã por ter assinado, junto com outros 16 indivíduos, uma carta que critica abertamente as ações do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, e denuncia a brutalidade do governo.
Qual a importância do filme ‘Foi Apenas um Acidente’?
O filme é importante por sua relevância artística (indicado ao Oscar e vencedor da Palma de Ouro em Cannes) e temática. Ele aborda a história de ex-condenados em busca de justiça, refletindo as questões de repressão e direitos humanos no Irã.
Qual a situação de Jafar Panahi em relação ao caso?
Jafar Panahi, diretor e co-roteirista de “Foi Apenas um Acidente”, também é um dos signatários da carta que levou à prisão de Mahmoudian. Panahi é um conhecido preso político e ativista, tendo sido condenado anteriormente por “propaganda” contra o Estado, e demonstrou apoio irrestrito a Mahmoudian.
Para se manter informado sobre a situação dos direitos humanos no Irã e o impacto da arte na denúncia de regimes autoritários, acompanhe as atualizações e aprofunde-se nos desafios enfrentados por aqueles que lutam pela liberdade de expressão.
Fonte: https://www.infomoney.com.br



