A indústria brasileira de fundos de investimento alcançou um patamar histórico em 2025, registrando R$ 10,7 trilhões em patrimônio líquido. Este marco notável foi atingido em um cenário desafiador, caracterizado por juros elevados, com a taxa Selic em 15% ao ano. O expressivo crescimento do patrimônio se desenvolveu em paralelo a uma significativa movimentação de concentração de recursos nas grandes gestoras e a uma reconfiguração estrutural nas alocações. Neste novo panorama, a renda fixa se fortaleceu, impulsionada pelos altos juros, enquanto fundos ilíquidos observaram um avanço acelerado, refletindo a busca por novas estratégias e diversificação em um ambiente de mercado em transformação.
O novo ciclo de juros e a dinâmica das gestoras
O patamar de juros elevados redesenhou profundamente a indústria de fundos de investimento no Brasil. Analistas do setor apontam que o marco dos R$ 10 trilhões não é apenas um número simbólico, mas um indicativo claro da nova escala e da crescente concentração que exigem maior discernimento por parte dos investidores. O ciclo de aperto monetário impactou diretamente a criação de novas gestoras: se entre 2019 e 2020, com um CDI médio próximo de 4% ao ano, surgiram 76 novas casas, o período entre 2022 e 2025, marcado por juros acima de 12% anuais, viu esse número cair para 58, uma redução de 24%. Essa dinâmica foi acompanhada por um aumento notável em fusões, aquisições e, em alguns casos, no encerramento de operações de gestoras menores.
Aceleração da concentração no mercado
Este ambiente de juros mais restritivos também catalisou a concentração de capital. Em 2022, as 20 maiores gestoras detinham 71% do patrimônio total da indústria, proporção que saltou para 75% em 2025. Esse movimento é significativamente mais acentuado no Brasil quando comparado ao mercado global, onde a participação das maiores gestoras avançou de 43% em 2019 para 47% em 2024. Especialistas explicam que o Brasil apresenta níveis de concentração mais elevados devido a um custo de capital estruturalmente alto e um mercado financeiro ainda em processo de amadurecimento. Embora essa concentração possa levantar preocupações sobre a competitividade e a inovação, ela também sinaliza o fortalecimento de estruturas com governança mais robusta, histórico de performance consolidado e maior capacidade de navegar por ciclos econômicos adversos.
Mudanças no perfil das alocações e o avanço dos ilíquidos
Simultaneamente à concentração, a distribuição dos recursos dentro da indústria de fundos tem passado por uma transformação significativa. A renda fixa mantém sua posição como a classe de ativos dominante, beneficiada pelo patamar elevado dos juros. Em períodos de aperto monetário, a procura por fundos atrelados ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI) naturalmente cresce, dada a previsibilidade e a rentabilidade atrativa, enquanto classes como ações e multimercados tendem a perder parte de sua atratividade e, consequentemente, espaço na alocação dos investidores.
Ilíquidos: busca por prêmio e diversificação
Apesar do domínio da renda fixa, os fundos ilíquidos têm conquistado uma participação cada vez mais relevante no patrimônio total. Estruturas mais sofisticadas, como Fundos de Investimento em Participações (FIPs), Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros) e Fundos de Índice (ETFs), viram sua fatia subir de 13% do patrimônio em 2019 para 22% em 2025. Somente no último ano, a captação líquida nesse segmento atingiu cerca de R$ 126 bilhões. Os FIPs foram os grandes protagonistas, com aproximadamente R$ 60 bilhões captados, seguidos pelos FIDCs, que se consolidam como importantes veículos de crédito no mercado local. Analistas de fundos observam que o ciclo atual favoreceu gestoras com uma estrutura multiproduto e processos de investimento sólidos. Casas que possuem equipes qualificadas e processos bem definidos são mais capazes de gerar retorno consistente, atraindo talentos e recursos mesmo em um cenário de alta de juros, que, embora tenha drenado recursos de ações e multimercados, fortaleceu a renda fixa e recompensou estratégias equilibradas.
Governança, clareza e transparência como pilares
O crescimento dos fundos ilíquidos está intrinsecamente ligado a três fatores principais: menor sensibilidade à volatilidade de curto prazo, a oportunidade de capturar prêmios de liquidez e o amadurecimento tanto da indústria quanto do próprio investidor. Essas estruturas oferecem diversificação, eficiência tributária em alguns casos específicos e, frequentemente, a distribuição recorrente de rendimentos, atraindo investidores em busca de alternativas e retornos diferenciados. Para que um fundo ilíquido se mantenha saudável e rentável a longo prazo, é crucial que combine uma governança robusta, uma tese de geração de valor clara e bem definida, uma equipe de gestão experiente e, acima de tudo, uma comunicação transparente com os cotistas. É fundamental que o investidor compreenda o horizonte de longo prazo associado a esses investimentos e se mantenha bem informado sobre o andamento da estratégia adotada pelo fundo.
Conclusão
Com mais de 1.045 gestoras e aproximadamente 43 milhões de cotistas, a indústria brasileira de fundos de investimento ingressa em 2026 maior, mais concentrada e significativamente mais sofisticada. Em um cenário que promete continuar desafiador, com persistente volatilidade e juros que podem permanecer em patamares elevados, a necessidade de diversificação e a seletividade na escolha dos investimentos se consolidam como as estratégias mais eficazes para navegar com sucesso por este novo estágio do mercado.
FAQ
O que significa a consolidação na indústria de fundos e qual seu impacto?
A consolidação refere-se à concentração de recursos e operações em um número menor de grandes gestoras, através de fusões, aquisições e o enfraquecimento de casas menores. Seu impacto é um aumento da escala operacional das grandes players, que podem oferecer mais produtos e ter maior poder de barganha, mas também pode gerar desafios à competitividade e inovação no longo prazo.
Como os juros altos influenciam o mercado de fundos de investimento?
Juros altos, como a Selic em 15%, tornam a renda fixa mais atraente e segura, desviando recursos de fundos de maior risco, como ações e multimercados. Isso dificulta a criação e o crescimento de novas gestoras, aumentando a pressão por consolidação. Para o investidor, significa retornos potencialmente mais elevados e previsíveis em investimentos conservadores.
Quais são as vantagens dos fundos ilíquidos e para que tipo de investidor eles são indicados?
Fundos ilíquidos, como FIPs e FIDCs, oferecem vantagens como menor sensibilidade à volatilidade de curto prazo, potencial de capturar prêmios de liquidez por sua natureza menos negociável e, em alguns casos, benefícios tributários e distribuição recorrente de rendimentos. São indicados para investidores com horizonte de longo prazo, tolerância a riscos específicos e que buscam diversificação e retornos diferenciados.
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Fonte: https://www.infomoney.com.br



