As facções que atuam no tráfico de drogas no Rio de Janeiro evoluíram para se assemelhar a grandes corporações, com uma estrutura organizacional altamente segmentada e profissionalizada. Um levantamento recente identificou 25 funções distintas dentro dessa engrenagem criminosa, que vão desde cargos tradicionais até novas especializações impulsionadas por avanços tecnológicos e a crescente complexidade das disputas territoriais. Essa transformação reflete uma mudança estratégica significativa, onde o controle de território e a exploração de diversas atividades ilícitas superam, em alguns casos, a mera comercialização de entorpecentes. O tráfico no Rio demonstra uma notável capacidade de adaptação e reinvenção, mimetizando modelos empresariais para otimizar suas operações e expandir sua influência.
A metamorfose do crime organizado no Rio
A dinâmica do crime organizado no Rio de Janeiro passou por uma profunda metamorfose, afastando-se do modelo tradicional focado puramente na venda de drogas para uma estrutura mais complexa e multifacetada. Essa evolução tem sido comparada à de grandes corporações, com divisão de tarefas, especialização de mão de obra e a criação de setores internos bem definidos.
Da venda à dominação territorial
Uma das mudanças mais significativas observadas, especialmente no período pós-pandemia, é a priorização do controle territorial pelas facções, como o Comando Vermelho. Para essas organizações, dominar ruas, vielas, moradores, comércios locais e até mesmo o acesso à internet em comunidades tornou-se mais rentável e estratégico do que simplesmente disputar preços no mercado de entorpecentes. O promotor de Justiça Fabio Corrêa, coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (Gaesp/MPRJ), ressalta que o comércio de drogas passou a ser quase uma atividade secundária diante da lucratividade e do poder gerado pelo controle territorial. Essa nova lógica de “domínio” em vez de “venda” impulsionou a criação e proliferação de diversas novas funções dentro da estrutura criminosa.
Tradicional versus inovador: a diversidade de funções
Dentro dessa engrenagem criminosa, persistem funções tradicionais, há décadas conhecidas no cenário fluminense, como o chefe da comunidade, gerente geral, gerente administrativo (apelidado de “síndico”), operadores logísticos, operadores financeiros, soldados, vapores, radinhos e matutos. Contudo, o avanço tecnológico das facções, aliado ao aumento de seu poder bélico e financeiro, gerou uma nova geração de cargos, até então inéditos. Essas novas especializações refletem a necessidade de adaptação do crime organizado para enfrentar tanto as forças de segurança quanto facções rivais, otimizando suas operações e garantindo a manutenção do controle sobre os territórios dominados.
As novas especializações da engrenagem criminosa
A sofisticação do crime organizado no Rio de Janeiro é evidenciada pela emergência de novas funções, que demonstram uma adaptação e profissionalização notáveis. Essas especializações são cruciais para a manutenção do poder territorial e a expansão das atividades ilícitas.
Gerenciamento de barricadas: engenharia da defesa
Entre as funções mais recentes está a de gerente ou mentor de barricadas, responsável por planejar a montagem e reposição de obstáculos nos acessos às comunidades. Esses criminosos definem o posicionamento estratégico das barreiras para dificultar ou desviar o avanço policial. As investigações policiais já prenderam figuras como Cosme Rogério Ferreira Dias, apontado como um “mentor das barricadas”, que atuava como uma espécie de engenheiro-chefe da estrutura financeira que sustenta esses bloqueios. Ele seria responsável pela circulação de recursos de lavagem de dinheiro e pelo apoio logístico com sucata metálica, muitas vezes oriunda de ferros-velhos sob influência do tráfico. O promotor Fabio Corrêa explica que as barricadas, hoje símbolos do poder territorial, se sofisticaram de barreiras rudimentares para estruturas com trilhos de trem, e atualmente incorporam engenharia clandestina com eletrificação, explosivos e sistemas de detonação remota. Essa complexidade levou à criação de batalhões especializados da Polícia Militar para enfrentá-las, o que, por sua vez, estimulou ainda mais a profissionalização do “mentor das barricadas”.
Monitoramento por drones: os olhos do tráfico
A tecnologia também se tornou uma aliada fundamental para o crime organizado, com a função de gerentes de monitoramento por drone. Esses indivíduos são responsáveis por recrutar equipes de operadores de drones, além de utilizar jammers (bloqueadores de sinal) e detectores para monitorar a comunidade e os movimentos da polícia. Há também operadores e, conforme o coordenador do Gaesp, responsáveis pela contrainteligência aérea, incluindo a captura de drones das forças de segurança. Relatórios de grandes operações de 2025 já descreviam o monitoramento feito pelo Comando Vermelho com drones e câmeras de segurança para controlar o território e o posicionamento de viaturas policiais. Mensagens interceptadas, por exemplo, mostram Carlos Costa Neves, conhecido como Gadernal, orientando a compra de drones com visão noturna, ressaltando a necessidade de “se adequar à tecnologia”. Outros nomes, como Geovane Ribeiro dos Anjos (Pinguim) e Juan Breno Malta Ramos (BMW), também foram identificados utilizando ou controlando drones e câmeras para vigilância.
Combate antiaéreo: a guerra nos céus
Paralelamente ao uso de drones, a crescente presença de helicópteros em operações policiais levou as facções a formarem grupos de combate antiaéreo. Essas equipes, conforme o promotor Fabio Corrêa, são compostas por atiradores de elite e operadores de munição traçante, que corrigem a trajetória do tiro em pleno ar. O objetivo é impor controle sobre o espaço aéreo, assim como fazem em terra, utilizando táticas de guerrilha para estudar ângulos, rotas e vulnerabilidades das aeronaves. A função, nascida da disputa tecnológica entre o crime e o estado, visa derrubar helicópteros, evidenciando o alto grau de confrontação. Em uma operação de 2024 para capturar Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, traficantes foram encontrados usando uma igreja de fachada como abrigo e ponto de ataque antiaéreo, com seteiras para atiradores com fuzis e lunetas. O secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, revelou um aumento de 700% nos ataques a aeronaves policiais nos últimos cinco anos, sublinhando a gravidade dessa nova especialização.
Extorsões e controle econômico: a face miliciana
Na esteira da ocupação territorial, o tráfico passou a incorporar práticas típicas das milícias, criando a função específica de gerente de “bairros”. Esse indivíduo é encarregado de estruturar extorsões a comerciantes e, em alguns casos, a moradores, centralizando a arrecadação e repassando os valores à liderança da facção. É um cargo de natureza administrativa, funcionando como um elo entre o controle territorial e o caixa da organização criminosa. Essa logística estruturada para impor restrições e realizar cobranças demonstra uma organização que mantém controle da arrecadação, registra a contabilidade e faz o repasse sistemático à liderança, como explica o promotor Fabio Corrêa, consolidando o poder econômico das facções sobre as comunidades.
Roubo de veículos e cargas: nova fonte de renda
Investigações apontam que roubos de veículos e cargas não são mais atividades periféricas, mas sim integradas de forma estruturada à engrenagem financeira das facções. Quando a lógica de controle territorial se consolida, as organizações buscam ampliar suas fontes de lucro, destinando equipes específicas para essa atividade. O promotor Corrêa destaca que o roubo de veículos, em particular, cumpre múltiplas funções, “alimentando de muitas formas o tráfico”. Há uma articulação direta entre os assaltantes e a facção que domina o território, que oferece segurança para o transporte de cargas e carros roubados. A estrutura inclui aluguel de galpões em nome de laranjas, revelando uma engrenagem que se tornou parte intrínseca da organização criminosa.
Engenharia subterrânea: túneis e bunkers
A especialização do crime é tamanha que existem indicações de mão de obra dedicada à construção e manutenção de túneis, bunkers e rotas de fuga subterrâneas. Operações policiais recentes revelaram a existência de “bunkers subterrâneos, rotas de fuga escavadas, compartimentos camuflados e verdadeiros depósitos subterrâneos de armas e drogas”. Embora nem sempre os responsáveis pela escavação sejam encontrados, o padrão repetitivo dessas descobertas sugere a existência de mão de obra especializada, seja por criminosos com experiência em obras ou por terceiros cooptados para essa finalidade, conforme o delegado Moysés Santana.
Gerenciamento de eventos: bailes e coação
Investigações em curso também apontam para a existência de gerentes de bailes e eventos em complexos como Penha e Alemão, utilizados para lavar recursos de origem ilícita. O promotor Fabio Corrêa esclarece que, embora os bailes e eventos comunitários sejam manifestações culturais, foram apropriados pelas facções. O tráfico se vale desses espaços para criar um senso de pertencimento, difundir seus valores e construir uma narrativa que facilita a cooptação de jovens. A necessidade de aprovação dos chefes para a realização desses eventos demonstra o controle da facção sobre a vida comunitária, mesmo que produtores de eventos tentem minimizar a influência direta do tráfico.
Funções de apoio: a base da pirâmide
A estrutura criminosa também conta com funções auxiliares essenciais para o dia a dia das operações. O “formiguinha” é responsável por transportar pequenas quantidades de droga rapidamente. O “fiel” circula pelas ruas durante a madrugada para observar o território e identificar movimentos suspeitos. Já o “sabadão” ou “malandrex”, dependendo da comunidade, são jovens recrutados apenas nos fins de semana ou em grandes eventos. Suas tarefas incluem passar recados internos, dar suporte aos vendedores em momentos de pico, monitorar discretamente a circulação nos pontos de venda, fazer pequenas entregas dentro da comunidade e organizar a logística interna para facilitar o fluxo entre setores.
Por que o tráfico se profissionalizou?
A modernização e a profissionalização do tráfico no Rio de Janeiro são impulsionadas por dois fatores principais: a proteção contra a ação do Estado e a defesa contra facções rivais. Diante de operações policiais cada vez mais especializadas, investigações telemáticas e ações de alta complexidade, as organizações criminosas investiram em mecanismos próprios de contrainteligência criminal. Esse processo é contínuo e retroalimentado pela percepção de impunidade e pela vasta capacidade financeira das facções.
O delegado Moysés Santana, titular da Delegacia de Repressão aos Entorpecentes (DRE), explica que o atual nível de profissionalização é um resultado direto da combinação entre poder econômico, domínio territorial e a baixa percepção de risco por parte dos criminosos. O mapeamento dessas 25 funções só foi possível graças a um processo de fortalecimento da DRE em pessoal, tecnologia e atuação operacional. A chegada de novos policiais capacitados em investigações telemáticas, financeiras e patrimoniais ampliou a capacidade da unidade. A resiliência e o comprometimento dos policiais da DRE, enfrentando facções de alto poder bélico, foram cruciais para desvendar essa complexa estrutura. O delegado enfatiza que, em grandes complexos, como o da Penha, o número de funções pode ser ainda maior, devido à existência de setores dedicados à logística, finanças, defesa, comunicação e inteligência criminal, demonstrando a profunda complexidade do cenário do crime organizado fluminense.
Perguntas frequentes
Quantas funções distintas foram identificadas dentro da estrutura do tráfico no Rio de Janeiro?
Um levantamento recente identificou 25 funções distintas, que demonstram a alta especialização e a estrutura organizacional complexa do tráfico na região.
Qual a principal mudança estratégica observada na operação das facções criminosas no Rio?
A principal mudança é a priorização do controle territorial sobre a mera comercialização de drogas. O domínio de áreas e serviços nas comunidades tornou-se mais estratégico e lucrativo.
Quais são algumas das novas funções tecnológicas mapeadas no tráfico?
Entre as novas funções tecnológicas estão os gerentes de monitoramento por drone, responsáveis pela vigilância e contrainteligência aérea, e grupos especializados em combate antiaéreo para enfrentar helicópteros policiais.
Como as barricadas evoluíram e quem as gerencia?
As barricadas evoluíram de obstáculos rudimentares para estruturas sofisticadas, com eletrificação, explosivos e sistemas de detonação remota. Essa engenharia da defesa é gerenciada por “mentores das barricadas”, que planejam sua montagem, posicionamento e financiamento.
Manter-se informado sobre a complexidade do crime organizado é fundamental para a busca por soluções eficazes. Acompanhe as análises e o trabalho das autoridades para entender os desafios e as estratégias de enfrentamento a esse cenário.
Fonte: https://www.infomoney.com.br



