Uma pesquisa recente revelou que a Câmara dos Deputados apresenta um baixo engajamento médio no tema da igualdade racial. O estudo, divulgado em Brasília, avaliou a performance de 571 parlamentares, utilizando uma metodologia inovadora que combina inteligência artificial (IA) com análise humana. Foram examinadas mais de 37 mil atividades legislativas, incluindo votos nominais, discursos, pareceres, emendas e substitutivos, para gerar o Ranking Igualdade Racial 2025. Os resultados apontam para uma atuação concentrada em poucos legisladores, com a maioria demonstrando pouca dedicação a pautas cruciais para a população negra. Essa análise detalhada oferece um panorama do compromisso do poder legislativo com a agenda da igualdade racial no Brasil, evidenciando desafios significativos e a urgência de um debate mais amplo e efetivo.
Avaliação do engajamento legislativo
O Ranking Igualdade Racial 2025 é um levantamento inédito que buscou quantificar e qualificar o trabalho dos parlamentares brasileiros no que tange à promoção da igualdade racial. A pesquisa aplicou uma metodologia robusta e transparente para analisar a vasta produção legislativa da Câmara dos Deputados.
Metodologia e resultados do ranking
O estudo baseou-se em uma análise exaustiva de 37 mil atividades legislativas, que abrangem desde votos nominais e discursos proferidos em plenário até pareceres, emendas e substitutivos apresentados pelos deputados. Para processar e interpretar esse volume massivo de dados, foi utilizado um algoritmo de inteligência artificial, desenvolvido especificamente para identificar a relevância e o impacto das ações legislativas nas pautas raciais. Essa abordagem tecnológica foi complementada por uma minuciosa análise humana, garantindo a precisão e a contextualização dos achados.
Os parlamentares foram avaliados e receberam notas que variavam de -10 a +10. A pontuação refletia suas posições favoráveis ou contrárias a projetos que visam explicitamente promover a igualdade racial ou que, de alguma forma, impactam diretamente a população negra. Uma nota positiva indicava apoio e engajamento com a causa, enquanto uma nota negativa sinalizava oposição ou ações que poderiam prejudicar o avanço da pauta. Esse sistema de pontuação detalhado permitiu traçar um panorama claro do nível de comprometimento individual de cada um dos 571 deputados analisados.
A queda abrupta nas pontuações
Um dos achados mais notáveis da pesquisa é a drástica diferença no engajamento entre os parlamentares de elite e a maioria dos deputados. A coordenadora de Advocacy, Ingrid Sampaio, salientou que, após os 50 primeiros colocados no ranking, as notas dos deputados caem de forma abrupta e não gradativa. Essa queda súbita indica que, embora exista um engajamento incipiente por parte de alguns legisladores, o esforço concentrado de um grupo restrito precisa ser considerável para compensar a falta de empenho da vasta maioria dos seus pares.
Essa disparidade sugere que a pauta da igualdade racial ainda não é uma prioridade transversal na Câmara dos Deputados. Em vez de um comprometimento generalizado, observa-se uma atuação heroica de um pequeno grupo de defensores, que se dedicam intensamente para tentar mover a agenda adiante. Essa dinâmica levanta questões sobre a eficácia de políticas públicas e a representatividade dos interesses da população negra em um corpo legislativo onde o engajamento é tão desigual. A ausência de uma atuação mais distribuída fragiliza o avanço de iniciativas importantes e perpetua um cenário de lentidão nas transformações sociais necessárias.
Obstáculos e responsabilidades
O baixo engajamento da Câmara dos Deputados em pautas de igualdade racial não é meramente uma questão de falta de tempo ou recursos, mas, como aponta a pesquisa, uma decisão política que reflete a complexidade e o desconforto que o tema gera em certos setores do Congresso Nacional.
O desconforto da pauta racial no congresso
A especialista Ingrid Sampaio enfatiza que o baixo engajamento se deve ao fato de a pauta racial ser um tema “desconfortável” para o Congresso Nacional. “É uma decisão política que a pauta não avance”, afirmou. Segundo ela, é um assunto “espinhoso porque obriga a reconhecer a responsabilidade que a gente tem como país de curar essa chaga e andar para frente”. Temas que exigem um confronto com o passado e uma reavaliação de estruturas sociais históricas tendem a ser evitados pelos parlamentares.
Ao longo da história, o movimento negro brasileiro tem defendido incansavelmente políticas públicas que visem reduzir as profundas desigualdades entre as populações negra e branca no país. Os dados corroboram essa urgência: segundo o Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (Cedra), a renda de pessoas negras correspondia, em média, a apenas 58,3% da renda de pessoas brancas. Essa persistente disparidade econômica é apenas um dos múltiplos aspectos da desigualdade racial que o legislativo é chamado a enfrentar, mas que, frequentemente, opta por adiar ou ignorar. O reconhecimento dessa responsabilidade nacional é um passo crucial para a construção de uma sociedade mais justa, mas é justamente esse reconhecimento que muitos parlamentares parecem evitar.
A representatividade como motor da mudança
A pesquisa aponta um dado crucial para a compreensão do engajamento em pautas raciais: parlamentares negros, mulheres e indígenas são os que mais impulsionam essas agendas. Eles demonstram uma atuação significativamente maior em votações, discursos, emendas e pareceres relacionados ao tema. Essa evidência reforça a importância da representatividade no processo legislativo.
Mesmo representando apenas 20% da Câmara, as mulheres, por exemplo, ocupam a maior parte das primeiras posições no ranking. Esse fato sublinha que a pluralidade de vivências e perspectivas é determinante para a formulação de políticas públicas mais robustas, alinhadas e responsivas às necessidades da população brasileira. A presença de pessoas não brancas e mulheres no Congresso Nacional não apenas visibiliza a pauta da igualdade racial, mas a fortalece, influenciando diretamente a qualidade dos debates e a elaboração de legislações mais eficazes. A coordenadora Ingrid Sampaio ponderou que “isso comprova, com dados, que a representatividade faz diferença. A presença de mulheres e pessoas não brancas no Congresso realmente influencia nas políticas públicas. Isso influencia na qualificação dos debates que a gente precisa ter como sociedade”, consolidando a ideia de que um congresso mais diverso é um congresso mais representativo e, potencialmente, mais eficaz na promoção da justiça social.
Perspectivas políticas e sociais
A análise do Ranking Igualdade Racial 2025 também oferece insights sobre a distribuição do engajamento político e a dinâmica interna das bancadas partidárias em relação à pauta racial.
Engajamento por espectro político
O estudo revelou que as primeiras colocações no ranking são predominantemente ocupadas por membros de partidos de centro-esquerda. Esse alinhamento reflete uma tendência histórica, na qual as legendas desse espectro político frequentemente assumem uma postura mais progressista em relação a questões sociais e de direitos humanos, incluindo a igualdade racial. No entanto, a pesquisa também destacou a presença de parlamentares de direita ou centro-direita entre os 50 primeiros colocados.
Ingrid Sampaio observou que, apesar da associação histórica da pauta racial com a esquerda, essas “dissidências” em outros campos políticos são significativas. “Os partidos de esquerda são mais engajados no tema e, ao mesmo tempo, a gente tem um centro e centro-direita com algumas dissidências”, afirmou. Ela sugere que esses parlamentares, em alguma medida, têm a liberdade para atuar de acordo com interesses locais, suas próprias vivências ou convicções pessoais, mesmo que isso contrarie as diretrizes de suas bancadas. Essa observação é crucial, pois aponta para a possibilidade de construir pontes e alianças mais amplas em torno da pauta racial, transcendendo as divisões ideológicas tradicionais e buscando apoio em diferentes setores do Congresso.
Conclusão
O Ranking Igualdade Racial 2025 oferece um diagnóstico claro e multifacetado sobre o engajamento da Câmara dos Deputados em um dos temas mais urgentes do Brasil. A pesquisa evidencia um baixo engajamento médio dos parlamentares, com um esforço concentrado em um pequeno grupo, enquanto a maioria demonstra pouca atuação. A representatividade de parlamentares negros, mulheres e indígenas mostra-se crucial para impulsionar a pauta, desafiando a percepção de que a discussão é apenas um nicho. Os resultados reforçam a necessidade de um comprometimento mais abrangente e consciente de todo o espectro político para enfrentar as profundas desigualdades raciais que persistem na sociedade brasileira.
Perguntas frequentes (FAQ)
1. Qual o objetivo principal do Ranking Igualdade Racial 2025?
O objetivo principal é avaliar e quantificar o engajamento dos deputados federais brasileiros em pautas de igualdade racial, identificando quais parlamentares atuam de forma mais consistente em favor da população negra e quais demonstram baixo envolvimento, utilizando uma metodologia que mescla inteligência artificial e análise humana.
2. Como é feita a pontuação dos parlamentares no estudo?
Os parlamentares recebem notas que variam de -10 (indicando posição contrária) a +10 (indicando posição favorável), baseadas em suas atividades legislativas – como votos, discursos, pareceres e emendas – em relação a projetos que promovem a igualdade racial ou impactam a população negra.
3. Quais grupos de parlamentares demonstram maior engajamento com as pautas raciais?
A pesquisa aponta que parlamentares negros, mulheres e indígenas são os que mais impulsionam as pautas de igualdade racial na Câmara, demonstrando maior atuação em atividades legislativas relacionadas ao tema. Esse achado ressalta a importância da representatividade para o avanço da agenda.
Este levantamento reforça a necessidade de um engajamento contínuo e aprofundado nas pautas de igualdade racial. Convidamos você a compartilhar suas perspectivas e a se informar sobre as iniciativas que visam impulsionar a justiça social no Brasil.



