Diante de um cenário geopolítico complexo e após impasses nas negociações sobre emissões de gases de efeito estufa (GEE) na Organização Marítima Internacional (IMO), o Brasil intensifica sua aposta nos biocombustíveis para a descarbonização do transporte marítimo. A estratégia visa posicionar o país como líder no setor e ganhar destaque durante a 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30).
A falta de consenso entre os estados membros da IMO sobre o Marco Net-Zero, especialmente a oposição dos Estados Unidos a um “imposto global sobre o carbono”, resultou no adiamento da definição da estrutura das metas marítimas. A proposta da IMO, apresentada em abril, incluía um padrão global de combustível e um mecanismo global de precificação de emissões, com implementação gradual a partir de 2027. Novas tentativas de avançar nas diretrizes serão feitas em breve, com discussões mais aprofundadas agendadas para os próximos 12 meses.
A discussão sobre o padrão de combustível é de grande interesse para o Brasil, que defende o uso de biocombustíveis como o biodiesel e o etanol, classificados como “drop-in” devido à sua compatibilidade com os motores de embarcações existentes. A representação brasileira na IMO tem promovido o uso de biocombustíveis de primeira geração como alternativa ao bunker, o óleo fóssil utilizado nos navios. A viabilidade dos biocombustíveis como solução climática tem sido defendida em diversos fóruns, incluindo o G20 e o Brics.
Apesar do potencial, os biocombustíveis brasileiros enfrentam resistência na Europa, que prioriza a amônia verde, o hidrogênio e o metanol como substitutos do combustível fóssil. Segundo Camilo Adas, diretor de Transição Energética e Relações Institucionais da Be8, a IMO sofre influências geopolíticas, com a Europa moldando regulações e representando um entrave inicial.
A falta de consenso na IMO também frustrou a International Chamber of Shipping (ICS), que representa grande parte da frota mercante mundial. Thomas A. Kazakos, secretário-geral da ICS, ressaltou a necessidade de clareza regulatória para investimentos em combustíveis alternativos e tecnologias de descarbonização.
Especialistas defendem que o Brasil deve aproveitar a COP30 para promover sua biotecnologia e bioenergia, demonstrando que essas fontes de energia não representam riscos à produção de alimentos. Estudos indicam que a produção de matéria-prima para o biodiesel pode complementar a produção de alimentos, aumentando a produtividade de terras degradadas.
Relatórios recentes apontam o potencial do Brasil para se tornar um pilar da descarbonização do transporte marítimo, com capacidade de suprir até 15% da demanda global de biocombustíveis para navegação, evitando milhões de toneladas de CO2 e atraindo bilhões de dólares em investimentos. Para que esse potencial se concretize, é fundamental o estabelecimento de um arcabouço regulatório claro, mecanismos de incentivo e a adaptação de motores a metanol compatíveis com etanol. Políticas de incentivo para a descarbonização marítima e avanços na infraestrutura portuária também são considerados essenciais. A necessidade de uma rota global onde combustíveis sustentáveis sejam facilmente acessíveis também é destacada.
Fonte: www.infomoney.com.br



